Agamben – a tensão bloqueante.

Epistemologia.

São Tomás de Aquino chamou a atenção para a diferença entre o criar do nada [creare ex nihilo], que define o fiat do Deus da cristandade, e a geração a partir da matéria [facere de materia], que define o inventar humano. Apesar da advertência, nos séculos a seguir a filosofia atribuiu poderes divinos ao engenho humano. Continuar lendo

Heráclito – a charlatanice quantitativa.

Epistemologia.

Uma coisa pode ser e pode não ser. Com essa assertiva, Heráclito expressa a mudança constante e eterna do Logos. Adverte ao mesmo tempo contra a dubiedade dos pitagóricos de adornar e entesourar quantidades e contra o imobilismo dogmático de Parmênides. Denuncia que ambos desprezavam a realidade viva.

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Acaso – a expectativa, modo de explorar.

Epistemologia.

Charlie Hankin

Somos condicionados a crer nas aparências de ciência e mérito. Daí o esforço dos iniciantes para darem a impressão de que têm experiência, de os médicos pendurarem todo tipo de certificados nas paredes do consultório e de os economistas jamais confessarem que não têm a menor ideia do que está acontecendo.

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Acaso – a borboleta contraprovável.

Epistemologia.

Em 1911, na cidade de Wuhan, ocorreu a Revolta de Wuchang. Começou com uma pequena agitação, mas ganhou proporções tais que levaram à queda da dinastia Qing e ao estabelecimento da República da China. Um evento relevante que poderia ter sido negligenciado se outro, também pequeno e no mesmo local, não tivesse tido consequências ainda maiores.

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Heurística – Desambiguação: a filosofia, a psicologia e a neurociência.

Epistemologia.

A filosofia empresta ao termo “heurística” a conotação ampla dos fenômenos que envolvem a descoberta e a invenção. Já a psicologia e as neurociências dão ao termo a conotação restrita aos processos mentais e cerebrais de encontrar ou descobrir algo intuitivamente. Outros campos e disciplinas, como o da análise de algoritmos e o do marketing, utilizam a denominação com significado diverso, etimologicamente impróprio.

Ao estudarem o que se passa na e com a psique quando ajuizamos intuitivamente, os psicólogos e neurocientistas dirigem sua atenção para tendências, como a de julgar e prever com base em inclinações e preconceitos (concepções prévias, não fundamentadas). Consideram três marcadores das intuições: a disponibilidade, a representatividade e a fixação-ajustamento. Seus estudos compreendem processos de recuperação do que está na memória, de elaboração de estimativas e os raciocínios baseados em similaridades. Procuram respostas para questões relacionadas à frequência e a predição dos acontecimentos. Perguntam-se sobre vieses, como os da inclinação que temos de lembrar de casos dramáticos ou de generalizar indevidamente a partir de casos particulares.

Neurocientistas, como os que seguem o caminho aberto por Daniel Kahneman, têm em comum com os filósofos questionarem os modelos ideais de julgamento, mas, cientistas que são, desconsideram os irracionalismos deliberados, como a cogitação, o devaneio e a fantasia.

As Ciências percorrem caminhos e têm propósitos diferentes dos da Filosofia. Sem dúvida tudo isso foi observado antes. Mas vale a pena repetir que entre o rigor próprio do científico e o campo ilimitado do filosófico inexiste disputa ou concorrência, mas emulação e fecundidade.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Heurística – Desambiguação: a filosofia, a psicologia e a neurociência. –  A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/11/30/heuristica-desambiguacao-a-filosofia-a-psicologia-e-a-neurociencia/
 
REFERÊNCIAS.
Gilovich, Thomas; Dale W. Griffin, Daniel Kahneman (eds.) (2009) Heuristics and biases: the psychology of intuitive judgement. New York. Cambridge University Press.

O sonho alquímico.

Epistemologia.

Igor Morski

Ars heurística por excelência, a alquimia, teve como propósito encontrar o caminho que levasse à descoberta ou à invenção da Pedra Filosofal (Lapis Philosophorum). Um objeto, um método ou um conhecimento, ninguém sabe ao certo, que potencializaria infinitamente a inteligência humana.

Os quatro subobjetivos alquímicos eram: a transmutação (conversão de fezes em água), a obtenção do elixir da longa vida, a criação da vida artificial, e a produção de riquezas (transformação de chumbo em ouro).

Esses desígnios pouco ou nada têm a ver com as ciências naturais dos séculos passados, que se alicerçam em epistemologias, métodos e técnicas estabelecidas para reduzir tudo à energia, à força e à prontidão dos elementos e dos corpos.

É verdade que desde o final do Renascimento a Ciência descobriu muitas coisas. Perdeu, no entanto, o rumo heurístico quando quis agregar valor aos bens e sentidos conhecidos, deixando de lado a invenção de bens inéditos e a busca de novos sentidos.

De tal sorte que o crédito pelo progresso no conhecimento deve ser atribuído aos raros cientistas que nunca abandonaram os sonhos alquímico. Dão testemunho desses resquícios de fantasia criativa a consecução dos subobjetivos, expressa nos purificadores que extraem água potável dos esgotos, nos fármacos que alongam a vida, na medicina regenerativa que cria tecidos humanos, e na economia que gera riquezas (falsas, no entanto) a partir do nada.

Infelizmente, o propósito maior dos alquimistas, inventar um meio que ampliasse o espirito humano, foi posto de lado. A Ciência institucionalizada acumulou e segue acumulando conhecimentos, mas deixou a busca da sabedoria e da criação à cargo de algumas poucas personalidades de espirito rebelde e fantasista.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – O sonho alquímico. –  A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/11/11/o-sonho-alquimico/

 

REFERÊNCIAS:
Marshall, Peter (2001). The Philosopher’s Stone: A quest for the secrets of Alchemy. London. Pan Macmillan.
Mc Neil, Ian (ed.) (1990). An encyclopaedia of the history of technology. London. Routledge.
Nummedal Tara E., Alchemy. (2005). In, Horowitz, Maryanne Cline New dictionary of the history of ideas. Thomson Gale.
Von Franz, Marie-Louise (1992). A Alquimia e a Imaginação Ativa. Tradução de Pedro Dantas Jr., São Paulo Cultrix.

Heurística – A experiência e o experimento.

Epistemologia.

Você não pode dormir. Você só pode acomodar-se para dormir. Você não pode ser feliz. Você só pode predispor-se a ser feliz. Você não pode descobrir ou inventar. Você só pode abrir a mente para descoberta e para a invenção. Tudo o que você pode fazer é construir uma atitude propícia ao sono, à felicidade, ao evento heurístico. Uma disposição, não um método, que é particular para cada pessoa em sua época e circunstância.

A atitude favorável ao êxito heurístico, a franquia do intelecto para o tentame, para o sonho, para o incomum, difere daquela do experimento. Mero verificador dos fenômenos, o experimento, como qualquer processo regular, requer uma estratégica, um método e um cuidado específico. O inverso do que é propício à descoberta ou à invenção.

Se alguém pretende recuperar a chave que caiu na poça, espera e olha à distância. Evita o movimento que turva a água. Três as condições de qualquer experimento científico turvam a água repousa o incógnito: 1) que o experimentador possa manipular à vontade as variáveis necessárias a produzir o fenômeno de interesse; 2) que as variáveis possam ser isoladas umas das outras; 3) que a manipulação e seus efeitos possam ser reproduzidos. Procedimentos esses que impedem que a mente alcance o extraordinário.

Na medida em que a descoberta e a invenção são singulares, todo experimento é necessariamente posterior ao evento heurístico, para o qual não há limite nem epistemologia, mas liberdade e confiança. Aquele que segue um método, às vezes descobre como o mundo funciona. Mas só por acaso descobre como deveria funcionar ou chega a inventar um mundo novo.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Heurística – A experiência e o experimento. –  A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/10/21/heuristica-a-experiencia-e-o-experimento
 

Heurística – Benjamin: a descoberta do invisível.

Epistemologia.

Walter Benjamin denominou “elemento mimético” a capacidade humana de perceber ou inventar semelhanças. Chamou a atenção para o fato de que a correspondência entre parecenças, como entre os macrocosmos e o microcosmos, acarreta nexos imateriais, substitutos da magia na explicação do mundo.

A fértil imagem que temos do átomo, por exemplo, criada em 1904 pelo físico japonês Hantaro Nagaoka, composto de elétrons orbitando um núcleo, é inteiramente falsa. Os elétrons preenchem em suas órbitas todas as porções do espaço simultaneamente. Aliás, como teorizou Niels Bohr, prêmio Nobel de física de 1922, um elétron muda de órbita sem percorrer o espaço intermediário. Apenas dá um salto quântico. A despeito de ser uma fantasia irrealista, a imagem atômica perdura como ícone até de instituições de física. É crível e transmissível. Ao quebrar as ilações lógicas convencionais, a intelecção súbita desse elemento mimético nos fez acreditar que o átomo realmente existe. O que é um feito relevante, se considerarmos que o átomo, uma entidade diversa dos corpúsculos, é não só invisível, mas irrepresentável. Perguntado como seria a imagem do átomo, Werner Heizenberg, inventor da mecânica quântica, a descreveu como algo que não se deve nem tentar imaginar. Não era um gracejo.

A apreensão de uma coisa que não pode ser figurada, ou mesmo cuja representação é incorreta volta e meia fecunda as matemáticas e as ciências naturais, mas não é exclusiva delas. Aplica-se ao que Walter Benjamin disse sobre os índices dos objetos históricos: que não é o passado que lança luz sobre o presente ou o presente que lança luz sobre o passado, mas uma ideia, a da dialética em trânsito, que cintila no instante em que fere a consciência para não mais aparecer.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Heurística – Benjamin: a descoberta do invisível. –  A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/09/30/heuristica-benjamin-a-descoberta-do-invisivel/

 

REFERÊNCIAS:
Benjamin, Walter et ali. (1970) Humanismo e comunicação de massas. Rio de Janeiro. Tempo Brasileiro.
Bryson, Bill (2002) Breve história de quase tudo. Tradução de Ivo Korytowski. São Paulo. Cia das Letras

Heurística – Os qualia: hiato explicativo.

Epistemologia.

O senso comum tem a consciência humana como fenômeno binário. Considera que ou bem estamos acordados e conscientes, ou bem estamos adormecidos e inconscientes. Mas a assinatura da consciência se confunde quando ponderamos separadamente a forma de aceder e o estado do fenômeno.

A consciência de acesso designa o conteúdo de uma representação, tanto ao nível perceptual como cognitivo, das informações diretamente disponíveis. Permite o controle racional do agir, do pensar e do comunicar. Dá prioridade à informação útil, ligada aos conceitos de memória, de atenção e de espaço circundante. Não necessita da capacidade de representação de ordem superior, só da capacidade de verbalização.

A consciência fenomênica designa o aspecto qualitativo do vivido. Os qualia, ou qualidades sensoriais, que se associam a experiências privadas sob as quais o mundo se apresenta a nós. São propriedades intrínsecas dos estados mentais ou dos objetos que experimentamos sob o modo de um conhecimento imediato. Por exemplo, a vermelhidão do vermelho, ou o doloroso da dor. Os qualia não podem ser representados, só expressos metaforicamente.

Se não há maiores dificuldades quanto ao entendimento da consciência de acesso, o mesmo não acontece com consciência fenomênica. Um hiato explicativo, empiricamente insolúvel, se interpõe entre as qualidades subjetivas da nossa percepção e o cérebro. Essa lacuna implica na existência de duas vertentes inconciliáveis de teorias sobre os qualia. Uma, partindo da concepção naturalista do real, toma os fenômenos na consciência como propriedades intrínsecas da experiência. Outra, toma os fenômenos como idealizações, experiências da razão, ou de segunda ordem.

Como as propriedades das experiências são estados perceptivos que podem se manifestar mesmo na ausência de acesso consciente explicito, a questão das qualidades mentais que levariam à descoberta e à invenção permanece no plano da conjectura. Tudo o que sabemos é que o evento heurístico equivale ao conhecimento que temos quando caminhamos olhando para o celular e paramos ante um sinal vermelho sem nos darmos conta, isso é, sem que tenhamos um acesso explicitamente consciente dirigido aos qualia sensíveis do sinal vermelho que nos fizeram parar.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Heurística: indução probabilística e tabu. –  A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/09/14/heuristica-os-qualia-hiato-explicativo

 

REFERÊNCIAS:
Block, Ned (1995). On a confusion about a function of consciousness. Behavioral and Brain Sciences.18(02)
Ciaunica, Anna (2017). Qu’est-ce que la conscience.
Levine, J. (1983). Materialisme and qualia: the explanatory gap. Pacific Philosophical Quarterly 64
 

Tédio criativo: a solução de Putnam.

Epistemologia.

Andy Warhol

Ninguém sabe ao certo o que excitou a inventividade de Andy Warhol (1926-1987). Ele próprio creditou sua compulsão criativa ao tédio mortal em um mundo onde “… todo mundo pensa sempre a mesma coisa e a cada ano tudo fica mais parecido”. Uma atmosfera em que “aqueles que falam sobre individualidade são os que mais se opõem a qualquer desvio …

Exatos trezentos anos antes de Warhol, Blaise Pascal (1623-1662) havia advertido sobre o poder inspirador do tédio. O argumento era semelhante: o despertar da necessidade obsessiva de procurar algo diferente, algo que desse sentido à existência, fosse o ainda oculto ou o inteiramente novo.

Passaram-se os séculos. Nem a Ciência, nem a Filosofia puderam ainda dar conta de como o enfado promove o evento heurístico. Até mesmo a fenomenologia e a filosofia analítica, matrizes da atualidade, falharam em explicar satisfatoriamente a distinção entre o tédio imobilizador e o indutor.

Talvez a mais sintética solução para essa dificuldade tenha sido encaminhada por Hilary Putnam, quando escreveu que distinguir entre o que existe concretamente no mundo e o que projetamos nele é improdutivo.  Estendendo o raciocínio, chega-se a que produtiva seria a conjunção entre o temperamento e a fantasia.

É possível que, sendo o tédio imobilizador relacionado tanto ao sujeito (o entediado) quanto ao objeto (o entediante), ao reagir a ambos, gente como Pascal, um matemático, filósofo e teólogo, e Warhol, um multimidiático de formação acadêmica modesta, tenha vindo a produzir, o primeiro, a recursão infinita do mesmo triângulo, o segundo, a repetição de imagens iguais ligeiramente modificadas. O certo é que, incitados pela monotonia, cada um deles em sua época e circunstância reinventou a percepção que temos do mundo.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Tédio criativo: a solução de Putnam. –  A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/08/26/tedio-criativo-a-solucao-de-putnam/
REFERÊNCIAS:
Pascal, Blaise (1951). Pensées sur la Religion et sur quelques autres sujets, qui ont esté trouvées apres sa mort parmy ses papiers. Guillaume Desprez. # 1717
Putnam, Hilary (1988). The many faces of realism Open Court Publishing Company
Thirouin, Laurent (2015). Pascal ou le défaut de la méthode. Lecture des Pensées selon leur ordre. Champion.
Warhol, Andy (1980). Popism: The Warhol Sixties. New York: Harcourt Brace Jovanovich.

Indução: método para bloquear a inventividade.

Epistemologia.

Michael Vincent Manalo

A canônica do Método Indutivo compreende um axioma primário, uma convicção lógica e cinco premissas encadeadas. O axioma é de que a Natureza é uniforme e regular. A convicção é de que se a classe de objetos a, definida mediante a propriedade p, goza também da propriedade q, então qualquer objeto que goze de p, gozará também de q. As premissas são:

  1. Concordância: se dois ou mais casos do fenômeno investigado possuem uma, e só uma circunstância em comum, a circunstância única é a causa ou o efeito do fenômeno dado;
  2. Diferença: se um caso no qual ocorre o fenômeno que se investiga e um caso em que este não ocorre possuem todas as circunstâncias em comum exceto a que tem lugar no primeiro caso, a circunstância única na qual diferem os casos é o efeito, a causa, ou uma parte indispensável da causa do fenômeno;
  3. Combinação: se dois ou mais casos em que têm lugar os fenômenos possuem somente uma circunstância em comum, enquanto dois ou mais casos nos quais não têm lugar não possuem nada em comum, exceto a ausência de tal circunstância, a circunstância única na qual os dois grupos de casos diferem é o efeito, a causa, ou uma parte indispensável da causa do fenômeno;
  4. Resíduo: subtraia-se de qualquer fenômeno a parte que, segundo induções prévias, constitui o efeito de certos antecedentes e o resíduo do fenômeno será o efeito dos restantes antecedentes;
  5. Variação concomitante: o fenômeno que varia de algum modo enquanto outro fenômeno varia é ou a causa, ou o efeito desse fenômeno, ou está relacionado com ele mediante algum fato de índole causal.

A suposição de que a Natureza seja uniforme e regular carece de fundamento teórico e demonstração empírica. A convicção lógica é claramente sofística. A invalidação do axioma e da convicção implica na volatilidade interna das cinco premissas e força o recurso à expedientes para a sanção fugaz dos resultados obtidos pela generalização indutiva.  A conjunção: fragilidade teórica, incompetência empírica, antilogismo da convicção, inconsistência das premissas e circularidade da pendência comprobatória desvia o caminho das descobertas e bloqueia a centelha de inventividade.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Indução: método para bloquear a inventividade. –  A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/08/08/inducao-metodo-para-bloquear-a-inventividade

 

REFERÊNCIAS:
Kneale, Willian e Marta Kneale (1980). O desenvolvimento da lógica. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian.
Mill, John Stuart (2020) A System of logic. New York. Vintage Books
Mill, John Stuart (2012). A System of Logic, Ratiocinative and Inductive. Cambridge UK. Cambridge University Press. (III, 5, part 8).
 

Heurística: indução probabilística e tabu.

Epistemologia.

As inferências indutivas obedecem a um estatuto que exclui as singularidades, o acaso e as particularidades das formas de ser. Retratam o quadro uniforme da experiência. Carecem de aptidão heurística.

A Teoria da Probabilidade, eixo maior do indutivismo, é constituída de poucos axiomas dirigidos à refletir dados e fatos tomados em abstrato. Só tem validade como signo da frequência relativa de eventos que se repetem em séries. Muitas ocorrências de relevância, como as predições, as crenças, o acaso e as postulações sobre singularidades não podem ser avaliados pelas regras probabilísticas. A probabilidade não se aplica a ocorrências únicas, como o desencadear de uma guerra, o fim de uma recessão ou o resultado de uma cirurgia. Lógica e razoavelmente não há razão alguma para considerar que se um certo número de A’s observados são B, então a generalidade dos A serão B’s. O que se pode saber de certo é somente que alguns A são B.

Um exemplo prático do vazio heurístico da indução é o do tabu do incesto. Apesar de generalizada, a interdição do consórcio entre irmãos e primos não têm fundamento na ciência. O que supõe, tanto na genética como na biologia, é o enfraquecimento do sistema imunológico e a propagação de enfermidades. Trata-se de mera conjectura. No entanto, postos ante os fatos, a maioria dos ocidentais tende a reunir argumentos para sustentar a interdição, não importando quão completamente esses argumentos sejam demolidos. Como todo tabu, a base empírica é distorcida pela tradição e pela opinião dominante.

A justificação teórica sobre uma base estatístico-indutiva oferece uma agenda de estudos positiva e outra negativa. A positiva é a da elucidação dos processos. A negativa a da condenação dos julgamentos se separam das restritas leis da probabilidade e das incertas tradições.  Tanto uma vertente como na outra tem o vezo de bloquear a intuição, que é uma das fontes melhores dos eventos heurísticos.

O objetivo da ciência é o de suprimir a ignorância pela capitalização de conhecimentos. Essa diretriz elide o fato de que o conhecimento novo é acarretado pela ignorância. A ideia de progresso ilimitado, que acompanhou o surgimento da ciência moderna, permanece seu princípio inspirador. Os sacramentos de capitalização e de progressão fazem com que se mova entre erros e enganos corrigíveis e que bloqueie o acesso ao totalmente ignorado.

O mais danoso desse fechamento é o critério da cientificidade: a evidência. A evidência – aquilo que se vê – pertence ao campo do aparente, e é da natureza do aparente tanto revelar como esconder. Daí que toda correção e toda desilusão na trajetória científica impliquem em circularidade: na “perda de uma evidência apenas porque é a aquisição de outra evidência”, nas palavras de Merleau-Ponty.

A ciência percorre o caminho seguro do “melhor e melhor ainda”, do “verdadeiro e ainda mais verdadeiro”. A implicação é que o evento heurístico, quando, e se ocorre aos cientistas, requer que a alforria dos procedimentos sob os quais operam.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Heurística: indução probabilística e tabu. –  A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/07/01/heuristica-inducao-probabilistica-e-tabu
REFERÊNCIAS:
Black, Max (1953) Problems of analysis. Philosophical essays. Ithaca. Cornell University Press.
Finetti, Bruno de (2017). Theory of probability. New York. John Wiley and Sons.
Gilovich, Tomas & Dale Griffin – Introduction: heuristics and biases, then and now. In, Gilovich, Thomas; Dale W. Griffin, Daniel Kahneman (eds.) (2009) Heuristics and biases: the psychology of intuitive judgement. New York. Cambridge University Press.
Haidt, Jonathan (2013) The Righteous Mind: Why Good People Are Divided by Politics and Religion. UK. Vintage Books
Keynes, John Maynard (1921). A treatise on probability. London. Macmillan.
von Mises, Richard (1957) Probability, statistics and truth. New York. Macmillan
 

Heurística: A liberdade do vazio.

Epistemologia.

Flora Borsi

O objetivo da ciência é o de suprimir a ignorância pela capitalização de conhecimentos. Essa diretriz elide o fato de que o conhecimento novo é acarretado pela ignorância. A ideia de progresso ilimitado, que acompanhou o surgimento da ciência moderna, permanece seu princípio inspirador. Os sacramentos de capitalização e de progressão fazem com que se mova entre erros e enganos corrigíveis e que bloqueie o acesso ao totalmente ignorado.

O mais danoso desse fechamento é o critério da cientificidade: a evidência. A evidência – aquilo que se vê – pertence ao campo do aparente, e é da natureza do aparente tanto revelar como esconder. Daí que toda correção e toda desilusão na trajetória científica impliquem em circularidade: na “perda de uma evidência apenas porque é a aquisição de outra evidência”, nas palavras de Merleau-Ponty.

A ciência percorre o caminho seguro do “melhor e melhor ainda”, do “verdadeiro e ainda mais verdadeiro”. A implicação é que o evento heurístico, quando, e se ocorre aos cientistas, requer que a alforria dos procedimentos sob os quais operam.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Heurística: Emancipar da ciência. –  A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/05/30/heuristica-emancipar-da-ciencia/
REFERÊNCIAS:
Merleau-Ponty, Maurice (1995). Phénoménologie de la perception. Paris. Gallimard.

Heurística: Acaso – Serendipidade.

Epistemologia.

Serendip (do árabe Sarandíb, antigo nome do Sri Lanka) é uma expressão cunhada por Horace Walpole (1717-1797) a partir do conto de fadas persa – Os três príncipes de Serendip.

No conto, os heróis sempre faziam descobertas de coisas que não procuravam. Daí que Walpole tenha tomado a palavra para denotar a faculdade ou dom de atrair o acontecimento de coisas felizes, ou de as descobrir por acaso.

A serendipidade é função da abertura do espírito à recepção do ato heurístico. Cristóvão Colombo partiu para encontrar o caminho para as Índias e descobriu a América. Alexander Fleming deu por acaso com a penicilina. Os exemplos se multiplicam.

Do conceito de serendipidade, Umberto Eco elaborou um método para propiciar a descoberta e a invenção. Consiste em forjar uma hipótese improvável a partir de um fato que resiste à análise. Em seguida, trabalhar a hipótese até que o acaso ou a intuição revele o encoberto ou traga o novo.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Heurística: Acaso – Serendipidade. –  A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensar https://hermanoprojetos.com/2022/05/13/heuristica-acaso-serendipidade/
REFERÊNCIAS:
Eco, Umberto (2010). Como se faz uma tese. Trad. Gilson Cesar Cardoso de Souza. São Paulo: Perspectiva.
Merton, Robert K.; Barber, Elinor (2011). The travels and adventures of Serendipity: A study in sociological semantics and the sociology of science. New Jersey. Princeton University Press.

Heurística: Para além do visível – a ilusão do real.

Epistemologia.

franz-von-stuck--head-of-medusaGaston Bachelard disse que o contemplativo possui uma visão da evidência; o teórico, um ponto de vista; o prático, uma perspectiva do mundo e que o explorador deve ser um visionário. Todos pretendem ver melhor e seguro. E, no entanto, padecem do “vício ótico”. São fabricantes de imagens. Nada descobrem, porque só se pode descobrir o oculto. Nada inventam, porque só se pode inventar o que antes era invisível.

Ver claro e nítido não corresponde à biologia humana. Pensamos enxergar completamente, mas há um ponto cego no lugar em que o nervo óptico se une à retina. Pensamos ver totalmente, mas a resolução visual absoluta corresponde a um grau de ângulo. Vemos por extrapolação e síntese. Por isso nossos olhos se movem constantemente.

Na Grécia, Aristóteles havia procurado, sem êxito, corrigir a atribuição da ocularidade às atividades superiores e da manualidade às subalternas. Aos quatro elementos de Empédocles aduziu o éter: a quintessência em eterno movimento, incorruptível, nobre, divina, invisível.

Afligia a Aristóteles, a Bachelard e a muitos outros em várias épocas, que não se notasse que a “realidade” é uma imagem gerada pela mente. Que a visão perfeita é uma ilusão fabricada pelo cérebro. Que a essência da descoberta do mundo e da invenção do novo está em enxergar sem ter visto.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Heurística: Para além do visível – a ilusão do real. –  A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/04/25/heuristica-para-alem-do-visivel-a-ilusao-do-real/

REFERÊNCIAS:
Aristóteles (2009) Física I e II. Tradução de Lucas Angioni. Campinas. Editora UNICAMP.
Arkan Simaan, Joëlle Fontaine (2003). A imagem do mundo: dos babilônios a Newton. São Paulo. Cia das letras.
Bachelard, Gaston (1970). Le droit de rêver. Paris. Les Presses Universitaires de France.

Heurística – A concepção e o sonho.

Epistemologia.

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O concebível não se confunde com o real. A concorrência perfeita e a socialização irrestrita são concebíveis, mas a tentativa de dar-lhes realidade se revelou uma aventura imprudente e infrutífera.

Os concebíveis isolam a idealidade das influências do Universo. São circulares, já que nossas crenças determinam o que encerram. Os concebíveis não podem alcançar o novo por meio da análise, nem podem concluir sem sintetizar, ainda que não sejam poucos os que passam do fato bruto às certezas definitivas.

Paul Valéry escreveu que o sonho contém saberes que encerram possibilidades. No onírico está a imagem que cultivamos e projetamos do encoberto e do desconhecido. Somente o sonho é trampolim dos saltos heurísticos. Como o sonho verdadeiro, o evento da descoberta ou da invenção é efêmero e circunstancial. Surge sem avisar. Assoma e já evanesce. Lampejos cognitivos e sonhos têm em comum serem breves, intuídos. Serem revelados e não encontrados. Freud viu nos sonhos mensagens externas à razão. Viu, também, que o suporte epistêmico é dispensável ao evento heurístico.

Muito antes de Valéry e de Freud, Pedro Calderón de la Barca escreveu que a vida é sonho e que os sonhos, sonhos são. Não se pode descrever melhor os mistérios do descobrir e do inventar.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Heurística – A concepção e o sonho. –  A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/04/06/heuristica-a-concepcao-e-o-sonho/

REFERÊNCIAS:
Barca, Pedro Calderón de la (2018). Antología Pedro Calderón de la Barca: La vida es sueño, El alcalde de Zalamea, comentada y revisada. E-Book Kindle
Freud, Sigmund (2019). A interpretação dos sonhos (1900). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo. Cia das Letras.
Valéry, Paul (2016). Le cimetière marin (1920). Paris. Larousse.

Mantendo-se informado.

Notas.

kisspng-nineteen-eighty-four-animal-farm-george-orwell-big-posterGeorge Orwell capturou a essência de como se manter informado no Estado contemporâneo: nunca acreditar em algo até que seja oficialmente negado.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 –  A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/

Heurística – Adeus à memória.

Epistemologia.

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Maja Lindberg

Sócrates contou a Fedro que o deus Toth ofereceu a Escrita ao Faraó. Esse a recusou, alegando que destruiria a Memória. Ao substituir a recordação por marcas externas, a humanidade perderia o hábito de reconstituir o visto e o vivido, amputando a Imaginação.

Os Gregos da era clássica acreditavam que a anamnese, o desesquecimento, era uma das principais funções da inteligência. Pensavam que sem o aprendizado e o exercício de memorizar a razão decai. Partilhavam a convicção de que a escrita é autoritária, já que impede o questionamento e a correção imediatos. Só o intercâmbio oral, a licença para interromper, como nos diálogos de Platão, poderia avivar o intelecto e encaminhá-lo para o discernimento.

Nós, que dialogarmos com máquinas, desaprendemos a cultivar memórias. Partes essenciais do processo de pensamento – a lembrança e a associação – passaram a acontecer fora da mente, atrofiando o cérebro. Ao perdermos a base para ver além daquilo que pode ser processado, já não admitimos a infinitude das possibilidades. A retificação da memória vem debilitando a faculdade heurística.

Jorge Luiz Borges disse que a cultura de massa é uma máquina de produzir lembranças falsas e experiências impessoais. Tinha razão. A foto, o filme, e a web, fáceis e imediatos, captam e difundem a figura e a forma do mundo. Hoje todos sentem a mesmas coisas e recordam as mesmas coisas, e o que sentem e o que recordam não é o que viveram. Como havia previsto o Faraó.

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CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Heurística – Adeus à memória. –  A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/03/18/heuristica-adeus-a-memoria/
REFERÊNCIAS.
Piglia, Ricardo (2004) Formas breves. Tradução de José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo. Cia das Letras.
Platon (1981) Fedro. In Platon, Obras completas (1981). Traducción y notas de Maria Araujo et ali. Marid. Aguilar S.A. de Ediciones.

Heurística – A fantasia, a ilusão, a descoberta.

Epistemologia.

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Alexander Almark

Vivemos uma quadra em que o florescimento tecnológico convive com a renúncia ao sonho. Tudo se aplica, pouco se descobre, quase nada se inventa.

Jules Verne e Arthur Clarke, em épocas de fartura heurística, anteciparam e descreveram o que vinha à sua frente. Nós, hoje, não temos ninguém que ofereça uma fábula original que seja sobre um futuro plausível. Ou implausível, como foi o dos astrólogos e o dos alquimistas, que pouco inventaram ou contribuíram para inventar, mas que muito descobriram e contribuíram para descobrir.

A maior ambição dos astrólogos, a antecipação das ocorrências, nunca passou de uma superstição. Mas as tentativas de dar com o futuro alimentaram descobertas. Um dos maiores astrônomos que já existiu, Claudio Ptolomeu (90-168) foi, também, ou antes de tudo, astrólogo. Pensou um céu geocêntrico, falho em número e magnitude, com ideias como a de planetas que teriam luz própria e órbita circular em que até hoje se baseiam os insensatos mapas astrais. Mas descobriu centenas de estrelas, descreveu o movimento dos astros, elaborou sistemas de cálculos muito à frente da sua época, produziu a súmula da astronomia antiga e uma obra que vigorou por mais de um milênio, o Almagesto (composição matemática).

O sonho maior dos alquimistas, a chave-do-mundo ou Pedra Filosofal, nunca passou de uma conjectura. Mas não foi inútil. As tentativas para a encontrar alentaram descobertas. Um alquimista tardio, que dedicou mais da metade da vida às pesquisas extravagantes, o professor de matemática de Oxford, chamado Isaac Newton, era cético em relação a coisas ilógicas, como a Santíssima Trindade, mas acreditava ser possível transformar metais vis em preciosos e encontrar a Pedra. Apesar dessas crendices, Newton descobriu as principais leis da física – movimento, gravitação, … – que a terra era oblata (achatada nos polos) e muitas outras coisas.

A descoberta em nada é inferior à invenção. A fantasia astrológica e o sonho alquímico não impediram que Ptolomeu e Newton mudassem a compreensão do mundo e que suas descobertas tenham sido mais revolucionárias do que qualquer invento, exceto, talvez, o da roda.

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CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Heurística – A fantasia, a ilusão, a descoberta. –  A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/02/28/heuristica-a-fantasia-a-ilusao-a-descoberta/
REFERÊNCIAS:
Bryson, Bill (2002) Breve história de quase tudo. Tradução de Ivo Korytowski. São Paulo. Cia das LetrasDampier- Wetham, Willian Cecil (1930). A history of science. Cambridge, Cambridge. University PressSimaan, Arkan e Joëlle Fontaine (2003) A imagem do mundo. Tradução de Dorothé de Bruchard. São Paulo. Cia. Das Letras.

A alegre degradação dos fatos.

vexel-art-illustrations-16Na forma dos métodos acadêmicos de investigação, o que é considerado factual é uma mera deformação da realidade.

Na vida efetiva, os acontecimentos não se apresentam sob o modo linear de causa-efeito. Nem mesmo são conectados uns aos outros. As ordens metodológicas que dão “representatividade” às investigações verificadoras [hipotético-dedutivas, e indutivas-generalizantes], não passam de constructos. São suposições sobre um sentido e sobre uma direção que a realidade não tem. O fato e o dado, o factum e o dactum, aquilo que foi feito ou o que se deu, são elaborações a posteriori.

Isso tudo é sabido e manifesto. O que também é sabido, mas que se evita comentar, é o pseudo-realismo dos modelos cunhados com base nesses métodos. A mistificação que originam faz com que a realidade deixe de se afigurar como obscura e estranha e se torne uma ficção clara e familiar. A consequência da fraude é a cega euforia das mentes enrijecidas pela mecânica repetitiva dos métodos acadêmicos e o declínio da disposição para descobrir e inventar.

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CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – A alegre degradação dos fatos. – A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/02/09/a-alegre-degradacao-dos-fatos/