Analítica histórica do trabalho.

Ética.

Proposta por Fernand Braudel, a esplêndida e redutiva figuração dos anéis da história tem o mérito de evidenciar a impropriedade da maior parcela dos discursos sobre o trabalho.

Segundo o esquema de Braudel, a história do trabalho é cindida por arcos concêntricos espaciais/temporais que se justapõem e se sucedem, tal como vemos no tronco de uma árvore. O círculo mais interno, o presente, diz respeito aos trabalhadores em um tempo-lugar marcado pelos eventos e oscilações breves da vida. O círculo seguinte, o mediano, refere à vida no seio dos grupos e das comunidades; é o do tempo social, da consciência coletiva, tingida pelas ocorrências do passado e pelo que se presume que virá. Por último, há o círculo maior, do tempo longo, a marca remota deixada pela longa duração nas sociedades e nas civilizações.
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Pluralismo – o argumento primeiro – A Tábua de Carnéades.

Ética.

Carnéades de Cirene (214-169 aec), precursor do cepticismo filosófico, foi levado para Roma como conferencista. Lá, sustentou que os deuses não existem, que a justiça é questão de conveniência e que os dilemas sobre valores definitivos são insolúveis. Furiosos, os romanos o repatriaram.

Injustamente, já que o seu argumento decorre do raciocino lógico expresso no dilema que ficou conhecido como Tábua de Carnéades. A premissa remete à situação em que dois náufragos disputam a posse da única tábua capaz de suportar o peso de somente um. O consequente leva ao esclarecimento da impossibilidade de uma solução por meio de qualquer princípio não contraditório. Incluindo os princípios morais que regem as leis. Decorre daí a execração romana.

Os dilemas éticos ocorrem sempre que um indivíduo ou um grupo se encontra em situação que exija cumprir com dois ou mais deveres, mas que só possa cumprir com um. São argumentos em que a premissa (lema) contém dois termos que implicam na mesma consequência, no caso a morte de um dos náufragos. As alternativas são categóricas (sim ou não). O agente tem que escolher entre duas ações morais obrigatórias, mas excludentes. Qual o critério?  O mais jovem, o mais velho, o mais …. Não há critério lógico fora de uma crença pessoal ou coletiva.

Carnéades foi extraditado devido à demonstração plena, inaceitável para os romanos e seu Direito, de que a validade da decisão lógica sobre a conduta humana só é possível no âmbito de domínios finitos particulares. Condição que jamais ocorre com os dilemas éticos, em que a solução implica na exigência de que outros (a sociedade, o estado, as religiões ….) inflijam seu juízo e suas leis à seres humanos que previamente declaram serem livres. Paradoxo que admite uma única inferência racional: a do convívio na diversidade.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2023 – Pluralismo – o argumento primeiro – A Tábua de Carnéades. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.wordpress.com/2023/01/16/pluralismo-o-argumento-primeiro-a-tabua-de-carneades

A nulidade do algorítmo benthamita.

Ética.

A primeira frase do primeiro capítulo da Introdução aos princípios da moral e da legislação, de Jeremy Bentham, diz isso: “A natureza dispôs a humanidade sob o governo de dois soberanos, o prazer e a dor. É por eles, e só por eles, que podemos determinar o que devemos fazer”.

Bentham havia se perguntado por que razão, afinal, os seres humanos seríamos obrigados a cumprir compromissos morais. Descartada a formalidade do que vai escrito em algum lugar, concluiu que o que nos obriga é a coerência lógica. Uma vez que preferimos o prazer à dor, o que pode nos induz a agirmos moralmente é o nosso anseio de evitar o sofrimento. Continuar lendo

O Anel de Giges e o Pluralismo.

Ética.

Giges, o pastor, súdito do rei da Lídia, foi um homem correto e praticante de boas ações. Numa ocasião, um tremor de terra fez com que uma fenda se abrisse onde ele pastoreava. Na fenda, Giges viu um cavalo de bronze oco. Dentro, havia o cadáver de um homem com um anel de ouro na mão. Giges pegou o anel e notou que ao girá-lo para um lado ficava invisível e para o outro lado, visível. Usando esse poder, seduziu a rainha e matou o monarca, tomando seu reino. Continuar lendo

Fontes da filosofia moral – Parfit: a ética do descuido de si.

Ética.

A ética da impessoalidade foi revivida nos já distantes anos 1990. Nessa época, Derek Parfit (Chengdu, China, 1942 – Londres, 2017), professor em Oxford, filósofo, historiador e fotógrafo arquitetônico retroagiu no tempo. Advogou em favor da escolha racional como fundamento da conduta ética.

Adotando as teses do absolutismo kantiano e do consequencialismo utilitarista, Parfit defendeu que endossássemos a impessoalidade como fundamento moral, ainda que as consequências pudessem ser paradoxais e dolorosas. Contra a corrente dominante – de então e de agora – negou valor às teorias éticas que repousam sobre concepções da identidade pessoal autocentrada. Argumentou que as teorias fundadas na individualidade são filiadas às religiões, o que faz com que confundam ideologia e moral.

O mais conhecido trabalho de Parfit discute futuros possíveis para o mundo. Mostra, convincentemente, que tanto os padrões médios quanto os padrões de utilidade levam a resultados individuais e coletivos indesejados. Conclui que o que importa não são as identidades, mas a continuidade e a conectividade com o mundo circundante.

Tudo que Parfit escreveu é discutível. O que não invalida o duplo legado que dele nos chega. O da contestação dos conceitos indetermináveis da psicologia como base para a conduta ética e o da afirmação da neutralidade necessária ao progresso do intelecto e ao equilíbrio nas relações interpessoais. Ambos argumentos nutrem ramificações do meridiano que dá sustentação à ideia do pluralismo ético.

 

REFERÊNCIAS:
Parfit, Derek (1984) Reasons and persons. New York. Oxford University Press.
Suikkanen, Jussi, John Cottingham (Ed). (2010). Essays on Derek Parfit’s on What Matters. New Jersey, Wiley-Blackwell.
UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Fontes da filosofia moral – Parfit: a ética do descuido de si. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/11/21/fontes-da-filosofia-moral-parfit-a-etica-do-descuido-de-si/

Fontes da filosofia moral – o Eclesiastes: enigma e problema.

Ética.

A Tanakh (bíblia judaica) é formada por três partes: Torá, Neviim e Ketuvin. O Eclesiastes, em hebreu Qohèlet (Patriarca), é o terceiro livro da terceira seção da última parte. O seu autor apresenta-se como “filho de David, rei em Jerusalém”, ou seja, o rei Salomão. A atribuição é falsa. A arqueologia paleográfica data o escrito de 250 aec. De modo que o autor, ou compilador da tradição, foi um hebreu erudito que certamente teve contato com a mais alta reflexão do seu tempo.

O texto do Eclesiastes é um enigma e é um problema. É curto, umas trinta páginas, e é o único escrito do Tanakh que dialoga com a filosofia da época em que foi redigido – o estoicismo, o epicurismo e o ceticismo. Esse o enigma. O problema é como, dois séculos e meio antes do advento do cristianismo, as ideias que ainda hoje influenciam a ética no Ocidente foram aceitas e absorvidas, sem que correspondessem as tradições religiosas hebraicas.

As principais dentre essas ideias constam de três inícios de parágrafo. Continuar lendo

Fontes da filosofia moral: Humboldt – O individualismo libertário.

Ética.

Wilhelm von Humboldt (Potsdam, 1767 – Berlim,1835), filósofo, linguista, gestor público, criador do sistema de ensino superior alemão foi um dos mais influentes pensadores do século XIX.

Ao discutir os princípios que devem orientar a formação moral da sociedade, Humbolt descartou a modelagem do ser humano, proposta por August Comte, a prepotência do Estado ordenador, agenda obrigatória do socialismo, e a exploração do homem pelo homem, cerne do liberalismo capitalista.

Para Humboldt, o que não emerge do livre-arbítrio ou o que se constitui apenas como resultado da instrução, priva o ser humano das características da sua espécie. Somente a liberdade individual nos coloca acima dos animais e nos diferencia da simples máquina.

Humbolt foi pioneiro ao sustentar que os grilhões sociais devem ser substituídos por laços afetivos e que o trabalho deve ser livremente empreendido. Não obstante ter inspirado a doutrina educacional do positivismo e a John Stuart Mill, quando esse se opôs à intervenção do Estado na vida coletiva, é dele a ideia, adotada pelo jovem Marx, de que o trabalho sem regulação permite que o ser humano seja fisicamente consumido e mentalmente rebaixado.

A voz de Humboldt atravessou os séculos. Ainda merece ser ouvida quando adverte que a burocracia estatal, o trabalho assalariado, a competição, o produtivismo e o consumismo incitam o que há de pior no ser humano.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Fontes da filosofia moral: Humboldt – O individualismo libertário. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/10/26/fontes-da-filosofia-moral-humboldt-o-individualismo-libertario/

 

REFERÊNCIAS.
Humboldt, Wilhelm Von (2004). Os limites da ação do Estado. Tradução de Jesualdo Correa. Rio de Janeiro. Topbooks.

Hobbes, o lobo do homem.

Ética.

Duas convicções estão presentes na obra de Thomas Hobbes. A do jusnaturalismo e a do contratualismo.

O jusnaturalismo se alicerça na opinião de que o fato único de termos nascido humanos nos dá o direito inalienável de cumprimos os desígnios da espécie. O próprio Hobbes assinala que existe uma dificuldade nesse entendimento: a de como conciliar a liberdade pessoal e a liberdade dos demais indivíduos. Ou seja, a de como evitar que o homem se torne lobo do homem. A solução que encontrou foi buscar em um suposto “estado da natureza”, pré-social, a chave da contenção do egoísmo típico da espécie humana. Foi cifrado nessa premissa que Hobbes defendeu sua modalidade de contratualismo: um pacto de alienação das vontades individuais a um soberano reverteria o provável estado de guerra de todos contra todos em uma ordem compartilhada.

Em que pese a lógica interna do raciocínio, o argumento não se sustenta. Primeiro, e mais evidente, porque nunca existiu um ser humano avulso, filho de chocadeira, ou criado por lobos, ou pela divindade providencial, salvo, é claro, o mítico Adão. Segundo, e decisivo, porque contra o direito natural dos seres humanos, Hobbes propôs um contrato de alienação em favor de um, e um só, ser humano: o Soberano, que conteria a sanha das individualidades pelo uso da força.

Fato é que nem o estado da natureza, nem o jusnaturalismo, nem o contrato alienante têm base empírica. São exemplos clássicos do erro lógico que consiste em derivar o dever-ser do ser, a norma do fato. Os motivos que requisitaram crédito ao esquema foram políticos. Tratava-se de abonar a ordem monárquica.

Não só por essas as razões o pluralismo ético se opõe ao contrato hobbesiano. Como ideal de harmonização, o pluralismo defende todas as liberdades, exceto as que atentem contra as liberdades de outros seres humanos, sejam naturais ou não. Daí que reivindique uma soberania acrática, regida não por uma pessoa ou grupo, mas pelo propósito único de conciliar os esforços da coletividade em favor da atenuação do sofrimento humano.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Hobbes, o lobo do homem. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensar https://hermanoprojetos.com/2022/10/12/hobbes-o-lobo-do-homem/

 

REFERÊNCIAS.
Hobbes, Thomas (1975). Leviathan, or matter, form, and power of a Commonwealth ecclesiastical and civil. London. Encyclopaedia Britannica.
Sztajnszrajber, Darío (2019) Filosofía en 11 frases. Buenos Aires. Paidós.

Fontes da filosofia moral: Sartre: a verdade bruta e a má-fé.

Ética.

Patrick Strogulski

Escorado na fenomenologia de Heidegger, Jean-Paul Sartre assegurou que as máximas universais, os valores objetivos, os mandamentos divinos, as determinações naturais bem como as sociais denegam a verdade bruta: a de que nossa liberdade moral é irrestrita e nossa responsabilidade é absoluta.

O corolário é que não temos desculpas para nossos atos.  Essa carga nos angustia de tal forma que propendemos à má-fé. O termo “má-fé” designa a mentira que contamos para nós mesmos ao negarmos o que é dado pela imaginação e ao racionalizarmos o nosso projeto pessoal ou coletivo. A má-fé seria evitável, ou sanável, mediante a admissão dos nossos erros de conduta e de suas consequências. Uma atitude moral, que Sartre denomina “autenticidade”, e que define como a tomada de consciência de que somos livres e responsabilizáveis pelo exercício da nossa liberdade.

Os argumentos de Sartre são descritivos. A sinceridade do que propugna é duvidosa, manchada que foi por sua biografia, seja durante a ocupação nazista da França (terá agido de boa-fé ao quase colaborar?), seja pelo engajamento ao stalinismo (onde o determinismo histórico empurrado goela abaixo dos povos se encaixa na noção de liberdade?), seja por enxovalhar os que pensavam diferentemente (onde a responsabilidade no desrespeito insultante ao amigo Camus?).

Essas contradições, baixezas e covardias não invalidam os legados de Sartre ao século XXI. Primeiro, a anexação de argumentos aos que a fenomenologia e o existencialismo haviam oferecido sobre a incapacidade de as teorias morais darem conta da realidade viva. Segundo, e principalmente, a verdade crua de que sujeitos e objetos, vítimas e algozes, somos responsáveis pelo que fazemos ao mundo e a nós mesmos.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Fontes da filosofia moral: Sartre: a verdade bruta e a má-fé. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/09/23/fontes-da-filoso…-bruta-e-a-ma-fe/

 

REFERÊNCIAS.
Sartre, Jean-Paul (1976). L’être et le néant: essai d’ontologie phénoménologique. Gallimard.
Sartre, Jean-Paul (1996). L’existentialisme est un humanisme. Gallimard.
Sartre, Jean-Paul (2003). Conscience de soi. In, La transcendance de l’Ego et autres textes phénoménologiques. Vrin

Fontes da filosofia moral: Whitman – ser plural.

Ética.

O século XX se inaugurou com a deslumbrante revelação de Nietzsche de que os valores são criados e transformados pela vontade de viver plenamente. Contemporâneo de Nietzsche, Walter Whitman havia chegado à uma ideia semelhante. Disse de si que era variável e contraditório, que continha multidões.

Precedendo as neurociências, o filósofo e o poeta verbalizaram o juízo de que cada um de nós é intelectualmente multíplice: que não há consolidação; que a mente sã é a que recusa o assentimento incondicional a uma linha de reflexão, a um partido político, a uma corrente ética; que podemos concordar com as posições marxistas, sem sermos comunistas; que podemos concordar com a linguística generativa de Chomsky e diferir das suas posições políticas. Ou vice-versa.

Isso posto, o caminho que se abre para a lucidez é de aceitarmos os outros em nós. Os medíocres continuam a entravar essa ideia. São a maioria. Seres humanos unidimensionais, como os denominou Marcuse. Negam-se a riqueza da multiplicidade de si.

 

The past and present wilt—I have fill’d them, emptied them.
And proceed to fill my next fold of the future.

Listener up there! what have you to confide to me?
Look in my face while I snuff the sidle of evening,
(Talk honestly, no one else hears you, and I stay only a minute longer.)

Do I contradict myself?
Very well then I contradict myself,
(I am large, I contain multitudes.)

I concentrate toward them that are nigh, I wait on the door-slab.

Who has done his day’s work? who will soonest be through with his supper?
Who wishes to walk with me?

Will you speak before I am gone? will you prove already too late?

Song of Myself, 51- Walt Whitman – (1819-1892)

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Fontes da filosofia moral: Whitman – ser plural. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/09/05/fontes-da-filosofia-moral-whitman-ser-plural/

 

Pluralismo ético – clarificação.

Ética.

Pode parecer evidente, mas não é despropositado recordar que o pluralismo ético diverge tanto das teorias relativistas, monistas e céticas quanto das práticas solipsistas e altruístas.

Afasta-se do relativismo ao denunciar a ilogicidade da crença de que pontos de vista contraditórios possam ser simultaneamente verdadeiros. Distancia-se do monismo, ao considerá-lo afim da emocionalidade de conceitos como a bondade, beleza ou crueldade.

Difere do ceticismo, que tem como resultante a contraditória platitude de se acreditar no que quer que seja.

Contra a unificação coercitiva ou induzida da moralidade, o pluralismo se alicerça na ideia de que a única forma de superamos os conflitos éticos é de nos pensarmos como espécie. Por isso, em lugar da conversão, propõe a abstenção da crítica meramente teórica; em lugar da tolerância, propõe o assentimento; em lugar da assimilação, propõe a acolhida.

O pluralismo apregoa a conciliação dos valores básicos. Sua universalidade não está em um núcleo teórico, mas na intenção de aliviar o sofrimento humano. Não se trata de um altruísmo.

Ser altruísta é desenvolver em relação a outrem uma atitude de devoção, em que o interesse dos outros vem em primeiro lugar. Também não é um solipsismo. Se no altruísmo o Eu se apaga em proveito do Outro, no solipsismo, o Outro se apaga em proveito do Eu. O ideal pluralista é o de que nem o Eu nem o Outro se apaguem. Que o eles sejamos nós.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Parâmetro e paradigma. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/08/17/pluralismo-etico-clarificacao/

 

Parâmetro e paradigma.

Ética.

Tatsuya Tanaka

A expressão “crise dos valores morais” é equivoca. O que há, de fato, é a reordenação paradigmática dos valores. Um trânsito cultural recorrente, que frusta as tentativas de parametrização.

O termo parádeigma,atos  significa padrão ou exemplo. Deriva do verbo paradeíknumi demonstrar. São paradigmáticas as variáveis fixadas arbitrariamente e que servem de modelo para outras variáveis da estrutura a que pertencem. Os valores são paradigmáticos.

O termo grego parametréó significa medir uma coisa por outra. São paramétricas as variáveis às quais se atribui uma magnitude e, por seu intermédio, se definem outras grandezas ou funções num dado sistema ou caso. As coordenadas em um eixo, por exemplo.

Quem usa termos como “perda dos valores” ou “valor financeiro” corre o risco de pensar os valores como entes mensuráveis. Uma rematada asneira. Os valores não podem ser medidos. Inexiste algo como 15% justo ou 3,35º belo. Além de incomensuráveis, os valores são incomparáveis entre si. Não há parâmetros para comparar o mais justo com o mais belo.

É certo que os valores admitem paradigmas como a beleza grega ou a justiça salomônica. Mas esses paradigmas são culturais, erráticos e mutáveis. Mesmo no campo das ciências exatas, a consagrada ideia de Khun, do paradigma como conjunto articulado de conceitos, práticas, métodos, instrumentos e técnicas que vige em uma determinada época e circunstância, entrou em crise. Ilya Prigogine – Prêmio Nobel – diz que antes havia marcos estáveis, mas que hoje o mundo da fisioquímica contém reações quânticas caracterizadas pela irreversibilidade da seta do tempo ou pela oscilação dos deslocamentos.

A crise dos valores não é uma crise no sentido estrito do termo: o momento culminante em que define a evolução de uma enfermidade para a cura ou para a morte. Trata-se apenas da reordenação dos paradigmas, uma situação frequente, que a humanidade vem aprendendo a aceitar. Se ainda no século XIX, houve a superação da ideia das Formas platônicas – modelos de tudo que é enquanto é -, pelo menos desde meados do século passado, caminha-se em direção ao consenso de que os valores morais, estando em conflito, não admitem conhecimento lógico do que seja o certo, mas apenas decisão arbitrária do que é o melhor.

 

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CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Parâmetro e paradigma. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/08/03/parametro-e-paradigma/
 
REFERÊNCIAS:
Khun, Thomas S. (1989). A estrutura das revoluções científicas. Tradução de Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. São Paulo. Editora Perspectiva S.A.
Pessis-Pasternak, Guitta (1993) Do caos à inteligência artificial: quando os cientistas se interrogam. Luiz Paulo Rouanet. São Paulo. Editora da Universidade Estadual Paulista.

 

Fontes da filosofia moral: Richard Hare – o universal e o prescrito.

Ética.

Richard Mervyn Hare (1919 – 2002), professor em Oxford, defendeu ser ilegítima a avaliação dos juízos éticos em termos de verdade / falsidade. Na visão de Hare, as normas racionais do que se pode e não se pode, do que se deve e não se deve fazer, do bom e do mau, do correto e do incorreto possuiriam apenas dois atributos: a prescritividade e a universalidade; enquanto o raciocínio moral possuiria dois níveis: o intuitivo e o crítico.

Os julgamentos éticos seriam invariavelmente prescritivos porque envolvem imperativos: dizer a verdade, faça isso, …. Seriam necessariamente universalizáveis porque requerem que as prescrições se apliquem a todos seres humanos em qualquer circunstância no espaço e no tempo. O nível intuitivo do raciocínio moral decorreria de uma (suposta) faculdade particular pré-reflexiva, de que todo ser humano seria dotado. As propriedades morais (ser justo, ser bom, ser obrigatório …) atribuídas a algumas categorias de agentes, ações ou fatos, seriam deduzidas a partir dessa faculdade. De modo que o kantismo daria conta da forma dos juízos éticos.

Os conflitos entre a intuição e a razão se resolveriam mediante a aplicação do filtro utilitarista – o melhor para o maior número de pessoas – às prescrições kantianas de base. Salvo que, como os interesses dos grupos podem ser concorrentes, seria facultado desconsiderar as intuições enraizadas no espírito em favor de maneiras de maximizar a satisfação de todos (como mentir, por exemplo).

O modelo híbrido de Hare é confuso e inaplicável. O legado maior do que pensou, ensinou e escreveu é a evidência de que – mesmo a um nível intelectual tão alto como foi o dele – não se tem como, legitimamente, sustentar a universalidade das teorias éticas. Muito menos efetivar a sua conciliação prática.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Fontes da filosofia moral: Richard Hare – o universal e o prescrito. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/07/29/fontes-da-filosofia-moral-richard-hare-o-universal-e-o-prescrito/
 
REFERÊNCIAS:
Hare, Richard (1981). Moral thinking – its levels, method and point. Oxford. Clarendon Press.
Williams, Bernard (1988) The structure of Hare’s theory, in: Hare and its critics. D Seanor and N Fotion. Oxford. Oxford Clarendon Press

 

Fontes da filosofia moral: Platônica ignorância.

Ética.

Em várias passagens, Platão advertiu sobre a resistência da Opinião ao conhecimento verdadeiro. Na Alegoria da Caverna, o prisioneiro que escapa de onde só se via sombras do mundo exterior, tarda longo tempo para se familiarizar com a luz do dia e para compreender a multiplicidade do real. Ao cabo, comete a imprudência de voltar e dizer aos antigos companheiros que a realidade é fluida e variada. Uma revelação que não conseguiam aceitar.

Como os prisioneiros que jamais saíram da Caverna, quando a Opinião declara que uma coisa é justa ou é correta, refere a fatos particulares, a ações ou arranjos de heranças exteriores à razão. Não alcança a possibilidade de um Ideal abstrato, que existisse independentemente de se alguém pense nele ou de se o conhecesse. A coletividade age assim porque, como Glauco ponderou, o que enxergou a luz da Verdade, ao revogar o conforto dos demais, é repudiado pelos que preferem continuar na escuridão.

Ao longo da história, o primarismo de fundar a ética em bases empíricas consolidou respostas sem fundamento lógico. As pessoas pouco ilustradas, presas às trevas do estabelecido, seguem entendendo o justo e o certo a partir de entes factuais, presumíveis em algum lugar do espaço e do tempo. O apelo à irreflexão e à convenção perdura. O descrédito e o silêncio que castigam os que propagam a Verdade, também.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Fontes da filosofia moral: Platônica ignorância. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/07/11/fontes-da-filosofia-moral-platonica-ignorancia/
 
REFERÊNCIAS:
Platon (1981). Republica. In Obras completas. Traducción y notas de María Araujo et. Alli. Madrid. Aguilar S.A. de Ediciones.

 

Jon Elster – Moralidade e emoção.

Ética.

Jon Elster mostrou que a ética substancial não é regida nem pela razão, nem pelos interesses, mas pelas emoções.

Impossíveis de serem normatizadas, as emoções constituem valores irrefletidos, que atendem às solicitações individuais e, confusamente, aos requerimentos dos grupos identitários.

Abandonadas pela filosofia, as emoções ou bem são tidas por signos referenciados à conservação e ao desenvolvimento vital, como em S. Tomás e Sartre, ou são consideradas como “vãs opiniões” e “pensamentos confusos”, como em Spinoza, Leibniz e Hegel, que lhes negam significado.

A dificuldade em se aplicar uma lógica às emoções reside em que a transmutação dos sentimentos em valores é um fenômeno inconsciente. Nós os racionalizamos, mas não temos como chegar racionalmente à sua origem. A inveja, por exemplo, não comporta a avaliação da pessoa invejada. Nietzsche, a atribuiu ao ressentimento, Freud, aos mecanismos de defesa, Festinger ao esforço de redução da dissonância cognitiva. A mesma indeterminação se passa com o amor, com a ira, etc.

Nem mesmo Elster pretendeu definir cabalmente as emoções. Seu esforço foi no sentido de chamar a atenção para que a vida social produz uma tendência a querer abonar ou desculpar – para os outros e para nós mesmos – as ações mais irrefletidas como sendo racionais, e as ações mais egoístas como sendo de interesse geral.

Embora ninguém tenha descrito satisfatoriamente o processo que leva a reinterpretarmos o sentimento como razão, é fato que temos necessidade de justificar nossas condutas emocionais a nós próprios. A autojustificação se dá pelo ingresso a posteriori de uma transmutação da inveja em indignação, da frustação em moralismo, da ignorância em desprezo, …. Ao cabo, os menos avisados tendem a justificar o desregramento como norma e a contingência como necessidade.

Na Declaração dos Direitos do Homem, de 1789, a tolerância foi associada à indulgência para com o pecado, à concessão para com os divergentes e à liberação dos costumes.

No século XIX, John Stuart Mill (1806-1873) avançou razões para defender o direito à liberdade individual ante as coações sociais. Alegou que há uma esfera de ação privativa do vivente sobre a qual a sociedade não pode e não deve interferir. Engendrou as ideias de tolerância para com as diferenças e de que o público e o privado são esferas distintas, cerne do liberalismo moderno.

Em outra vertente do pensamento, o anarquista Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865) endossou o argumento libertário, que diz que só com a tolerância completa seria possível fazer aflorar as falsas ideias, e que isso as anularia. Paralelamente, o positivista Auguste Comte (1798-1857) pregou a tolerância utilitária. Seria aplicada em um primeiro momento como parte do “processo crítico”. Depois, quando se alcançasse uma nova Etapa da História, a tolerância deixaria de ser admitida, dado que poderia conduzir à dissolução. Mais adiante, à esquerda do pensamento, Antonio Gramsci (1891-1937) pregou que a tolerância limitada. Necessária para que o coletivo chegasse a uma decisão racional sobre as finalidades do Partido. Uma vez estabelecidas as metas a serem alcançadas, deveria haver intolerância absoluta, sob pena de diversão e fracasso.

No segundo termo do século XX, o tema voltou à discussão com o conceito de “tolerância repressiva” de Herbert Marcuse (1898-1979), quem sustentou que a condescendência com os dissidentes na sociedade liberal tem o propósito de servir não para a emancipação dos grupos e das pessoas, mas para adormecer os impulsos libertários.

Para nós, no século XXI, permanecem relevantes os argumentos de Mill, Proudhon e Marcuse. Mostram como a autodeterminação é viciada pelas instituições e evidenciam que só a intolerância com o radicalismo despótico pode nos livrar da destruição da liberdade.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Jon Elster – Moralidade e emoção. – A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensar – https://hermanoprojetos.com/2022/05/18/jon-elster-moralidade-e-emocao/
 
REFERÊNCIAS:
Elster, Jon (2007) Explaining social behavior. New York. Cambridge University Press.
Festinger, Leon & James M. Carlsmith (1959). Cognitive consequences of forced compliance. Journal of Abnormal and Social Psychology, 58, 203-210.
Freud, Sigmund (1996) As pulsões e suas vicissitudes (1915). Edição Standard das Obras Completas (ESB). Rio de Janeiro. Imago.
Nietzsche, Friedrich (2005). Humano, demasiado humano; Tradução e notas Paulo César de Souza; São Paulo; Companhia das Letras.

 

Tolerância: o círculo se fecha.

Ética.

artepluralidade

Na Declaração dos Direitos do Homem, de 1789, a tolerância foi associada à indulgência para com o pecado, à concessão para com os divergentes e à liberação dos costumes.

No século XIX, John Stuart Mill (1806-1873) avançou razões para defender o direito à liberdade individual ante as coações sociais. Alegou que há uma esfera de ação privativa do vivente sobre a qual a sociedade não pode e não deve interferir. Engendrou as ideias de tolerância para com as diferenças e de que o público e o privado são esferas distintas, cerne do liberalismo moderno.

Em outra vertente do pensamento, o anarquista Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865) endossou o argumento libertário, que diz que só com a tolerância completa seria possível fazer aflorar as falsas ideias, e que isso as anularia. Paralelamente, o positivista Auguste Comte (1798-1857) pregou a tolerância utilitária. Seria aplicada em um primeiro momento como parte do “processo crítico”. Depois, quando se alcançasse uma nova Etapa da História, a tolerância deixaria de ser admitida, dado que poderia conduzir à dissolução. Mais adiante, à esquerda do pensamento, Antonio Gramsci (1891-1937) pregou que a tolerância limitada. Necessária para que o coletivo chegasse a uma decisão racional sobre as finalidades do Partido. Uma vez estabelecidas as metas a serem alcançadas, deveria haver intolerância absoluta, sob pena de diversão e fracasso.

No segundo termo do século XX, o tema voltou à discussão com o conceito de “tolerância repressiva” de Herbert Marcuse (1898-1979), quem sustentou que a condescendência com os dissidentes na sociedade liberal tem o propósito de servir não para a emancipação dos grupos e das pessoas, mas para adormecer os impulsos libertários.

Para nós, no século XXI, permanecem relevantes os argumentos de Mill, Proudhon e Marcuse. Mostram como a autodeterminação é viciada pelas instituições e evidenciam que só a intolerância com o radicalismo despótico pode nos livrar da destruição da liberdade.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.

CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Tolerância: o círculo se fecha. – A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensar – https://hermanoprojetos.com/2022/04/29/tolerancia-o-circulo-se-fecha/

 

REFERÊNCIAS:
Comte, Auguste (1978). Curso de filosofia positiva. Tradução de Miguel Lemos e José Arthur Giannotti. São Paulo. Editora Abril Cultural.
Gramsci, Antonio (1974) Intransigeance tolérance, tolérance intransigeance, in Écrits Politiques. Traduction de Marie-Gracieuse Martin-Gistucci, Gilbert Moget, Robert Paris et Armando Tassi . Paris. Gallimard [Il Grido del Popolo, 8 -12 – 1917]
Marcuse, Herbert (1970). Tolerância repressiva, in Wolff, Moore & Marcuse. Crítica da tolerância pura. Tradução de Ruy Jungmann. Rio de Janeiro. Zahar.
Mill, John Stuart (1963). Da liberdade. Tradução E. Jacy Monteirode São Paulo. IBRASA
Proudhon, Pierre Joseph. (1967). Œuvres choisies. Paris. Gallimard.

Pluralismo – Grues paradoxes.

Ética.

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Daniel Boudinet – Polaroid (1979)

Nelson Goodman, na sua discussão sobre a conformidade, expôs o que denominou de “grues” (de green + blues) paradoxes. A expressão nomeia os indefiníveis. Como quando não sabemos dizer se o mar é verde, azul, verde-azulado ou azul-esverdeado. Descreve as condições em que não é possível distinguir entre o que é hipotético, o que é projetado e o que é evidente.

Goodman sistematizou o que desde sempre a filosofia ressalta: os casos envolvendo seres humanos são constructos que não admitem uma solução única. As justificações dos valores universais são dogmáticas e os raciocínios que se seguem são aporéticos [inconclusivos].

Transpostos para o campo da ética, os grues paradoxes advertem para as muitas vezes em que, na correspondência entre a moralidade e a razão, é impossível determinar qual argumento deve prevalecer. O problema que apresentam é insolúvel porque não se trata de uma situação, mas de uma condição. A de que inexiste a Máxima Suprema, clara e distinta, em relação a qual todas as demais correntes da filosofia moral seriam defectivas.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Pluralismo – Grues paradoxes. – A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensar – https://hermanoprojetos.com/2022/04/11/pluralismo-grues-paradoxes/

 

REFERÊNCIAS:
Goodman, Nelson (1990). Fact, fiction, and forecast. Boston. Harvard University Press.
Piaget, Jean. (1975). Epistemologia Genética. Tradução de Nathanael C. Caixeiro. São Paulo. Abril Cultural.
Platon. Menon. In, Obras completas (1981). Traducción y notas de Maria Araujo et ali; Marid; Aguilar S.A. de Ediciones.

Para além da moralidade teórica.

Ética.

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As tentativas de hierarquizar os valores morais falham em resolver dois dilemas que se entrecruzam: o da questão ética, de como acolher o diferente e o da questão política, de como coexistir com o antagônico.

Ao arbitrarem a superioridade de um valor sobre outros, as óticas monistas invalidam a solução de consenso. Interditam buscar uma sociedade em que todos estejam de acordo sobre a moralidade básica. Já a ideia da submissão à pactos, seja o do consenso, como em Habermas, seja a do contrato imaginário, como os que vão de Hobbes até Rawls, é utópica.

Por essas razões o pluralismo se opõe tanto ao monismo, que sustenta a existência de valores exclusivos, como ao utopismo, que pensa ser possível harmonizar as concepções de bem.

Realisticamente, propõe tratar os demais como pessoas e não como indivíduos, atribuindo-lhes a liberdade moral que não fira a lógica da proteção aos direitos da alteridade e do amparo aos desvalidos.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Para além da moralidade teórica. – A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensar – https://hermanoprojetos.com/2022/03/23/para-alem-da-moralidade-teorica/

 

REFERÊNCIAS:
Berlin, Isaiah (1999). Concepts and categories: Philosophical essays. New Jersey. Princeton University Press
Cherques, Hermano Roberto Thiry (2008). Ética para executivos. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getulio Vargas.
Cherques, Hermano Roberto Thiry (1993). Sondagem sobre Valores Éticos nas Organizações Brasileiras. Cadernos EBAP. Fundação Getúlio Vargas.
Perelman, Chaïm (1990). Désaccord et rationalité des décisions. In Éthique et droit. Bruxelles. Éditions de la Université de Bruxelles.

O esgotamento do parâmetro moral.

Ética.

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Até o último termo do século passado acreditou-se na viabilidade da constituição de um ideal ético unitário. As teorias morais supunham que seria possível traçar um contorno do homem justo e da sociedade perfeita.

Essa crença caiu por terra ao se comprovar que inexiste qualquer formulação que pondere os bens e valores humanos em épocas e circunstâncias distintas. Os paradigmas arcaico e clássico – o homérico, o socrático, e o aristotélico-tomista da “grande alma” – são incompatíveis entre si. Diferem, também, da “virtu” romana, que conflita com a “superbia” do renascentista Maquiavel e das concepções cristãs de humilias e de fraternitas. Essas, por sua vez, nada têm a ver com as ideias de solidariedade e de pattern arbitrário, imperantes no Ocidente desde o século passado.

O Brasil é bem exemplo da incongruência das idealizações morais. Não há uma continuidade cultural entre nós. De um lado, a conjunção dos elementos indígena, europeu e africano jamais se homogeneizou. De outro, o elemento dominante, Portugal, tendo perdido a autonomia política entre 1580 e 1640, decaiu vertiginosamente entre os séculos XVII e XVIII. Passou à periferia da Espanha do Barroco, ao largo da Itália da Arcádia e da França do Iluminismo.

Culturalmente colonizados, produzimos ao longo dos dois últimos séculos uma amálgama que, tendo pedido emprestado aos franceses o modo de pensar burguês e aos ingleses a forma mercantil de conduzir a economia, hoje acocora-se docilmente ante o management pragmático norte-americano.

Desde sempre e em toda parte os bens e valores identificados por quaisquer moralidades – culturais, sociais, de forma de vida, etc. – são competitivos entre si. Nada autoriza a esperança ou ilusão de que se encontre um ponto em comum que sirva de ajustador entre essas divergências. A observação não é lastimosa. É possível que o multiculturalismo favoreça a abertura para uma ética pluralista, uma atitude esclarecida em um mundo globalizado.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – O esgotamento do parâmetro moral. – A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensar – https://hermanoprojetos.com/2022/03/04/o-esgotamento-do-parametro-moral/

 

REFERÊNCIAS:
Cf – Bosi, Alfredo (2015). História concisa da literatura brasileira. São Paulo. Cultrix

Consciência moral e responsabilidade.

Ética.

15946033062_d530c419c1_oA língua inglesa distingue conscience – a consciência moral -, de consciousness – a consciência psíquica. A discriminação categórica entre estar ciente e estar desperto é terminante. Somos moralmente responsáveis pela forma como, estando conscientes, respondemos à nossa consciência.

A consciência moral tem três dimensões. A primeira é a faculdade de balizar o melhor para todos. A segunda é a de saber a razão porque se faz alguma coisa: os motivos e os fins. A terceira é operacional: o entendimento de como devemos agir.

Abrem-se daqui os níveis da ação moral consciente: o agir elementar; o agir em uma coletividade; o agir a respeito da ordem institucional (as organizações, os governos, o Estado).

Essas dimensões e níveis convergem para a responsabilidade pelo que fazemos, deixamos de fazer e permitimos que se faça. À diferença dos animais, podemos inibir nossas intenções e atos. Podemos ajuizar nossas ações em relação aos efeitos sobre os outros e sobre o mundo. Somos emuladores do bem ou cúmplices do mal, ainda que seja por omissão.

O corolário é que na eventualidade de não termos ou não podermos acessar nossa consciência moral, nos isentamos de responsabilidade. Sendo esse o caso, cumpre à comunidade retirar nosso poder de decisão, como se faz com as crianças pequenas e com as pessoas dementes; ou nos afastar do convívio, como se faz com os criminosos e com as pessoas que transgridem os princípios elementares da moralidade. Somos conscientes e responsáveis, ou inconscientes e irresponsabilizáveis.

 

 
 
UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – O apego ao equívoco moral. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/02/14/consciencia-moral-e-responsabilidade/