A dissolução do contrato coletivo de trabalho.

Trabalho.

Nas primeiras leis sobre a contratação das atividades produtivas, ainda na Antiguidade, o trabalho era tido unicamente como a tarefa do corpo. Era objeto de um acordo de compra e venda, que guardava quase todas as características da escravidão.  Podia ser vendido como obra feita, isto é, remunerado como parte do preço do produto ou serviço, ou como mercadoria, ao se atribuir um preço ao esforço do corpo humano. Continuar lendo

Freud – O gerente, o totem e o tabu.

Trabalho.

Freud pensava que o tabu de um rei é tão forte que os súditos não têm forças para o interpelar. É necessário que alguém, que cause menos temor, medeie a relação entre ambos. A observação é perspicaz. Não fica clara a sua origem.

Ao refletir sobre a intermediação hierárquica é possível que Freud se reportasse à figura dos anjos hebreus, contraface dos santos cristãos no relacionamento entre a divindade e os mortais. Talvez, como colecionador de estatuetas de povos politeístas, que chamava de “utensílios de imaginação”, Freud tenha pensado em um deus dos deuses, o poder supremo que governa o mundo, destituído de interesses e de inclinações e que, portanto, não está ao alcance dos mortais.

Nunca saberemos o que inspirou a observação freudiana. O que temos confirmado, graças à antropologia, é que as relações entre humanos e seres totêmicos necessitam de mediação. A fé dos Iorubas, por exemplo, que herdamos da África e que Freud não conhecia, considera que os deuses nasceram de um deus supremo – Olodumare. Por isso os cultos afro consideram idolatria a mediação de sacerdotes ou interpostos profissionais.

Talvez o sincretismo entre a cultura europeia e as culturas afro ajude a nos proteger dos totens institucionais que anulam as identidades. Nos prepare melhor para o advento trabalho à distância, com a dissolução dos lambe-botas, dos gerentes-pastores que têm o encargo de intercederem junto aos deuses organizacionais, apascentando seres humanos com a farsa de que suas opiniões e reclamos estão sendo ouvidos.

 

REFERÊNCIAS:
Freud, Sigmund (2013). Totem e tabu. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo. Penguin

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Freud – O gerente, o totem e o tabu. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.wordpress.com/2022/12/23/freud-o-gerente-o-totem-e-o-tabu/
 

Weber – Da ética protestante ao espírito pecuniário.

Trabalho.

No seu texto mais conhecido, Max Weber comparou as razões possíveis da difusão acelerada de um espirito capitalista. Considerou a ética protestante como a mais decisiva. Nunca afirmou, como alguns acreditam, que o protestantismo por si só teria determinado o florescimento da economia de mercado. Isso porque o capitalismo é anterior à Lutero e Calvino e as causas para seu surgimento e predomínio são, evidentemente, múltiplas. Continuar lendo

Voltaire contra Vaucanson – a pessoa reduzida ao indivíduo.

Trabalho.

Jacques de Vaucanson (1709 – 1782) foi um gênio criativo francês. Dentre outras coisas, inventou um tear mecânico. Movido por um asno, o tear substituía dez tecelões. François-Marie Arouet (1696-1778), conhecido como Voltaire, disse de Vaucanson que, rival de Prometeu, havia tomado o fogo dos céus para animar os corpos.

Mais tarde, em outro texto, Voltaire arrependeu-se do entusiasmo. Escreveu que a capacitação tecnológica equaliza as habilidades, tornando dispensável a perícia artesanal; que o adestramento habilita nossas mãos para cumprir as obrigações profissionais sem que precisemos decidir a cada passo o que fazer; que a tecnologia desabilita nossa mente, de modo a que trabalhemos sem pensarmos nas consequências, para nós e para os outros, do que estamos fazendo. Ao cabo, previu a obsolescência das modalidades de trabalho de raiz humanista.

Tinha razão. Desde o século XVIII, o humanismo veio sendo gradualmente substituído pelo produtivismo. Chegamos ao final do século XX sob a égide de práticas alienantes, como “dinâmicas de grupo”, “portas abertas”, “diálogo franco”, “ciclos de qualidade”, hoje superadas por outras, algorítmicas, ainda mais cruéis. Técnicas que, sem exceção, tomam o ser humano como indivíduo, não como pessoa.

A diferença é significativa. O termo “pessoa” refere àquele que tem voz (per-sonare), enquanto o termo “individuo” diz respeito à unidade mínima do corpo social: o que não mais pode ser dividido. A tecnologia capaz de ler o material a ser trabalhado além do visível, de expandir o sentido tátil e a linguagem simbólica, imaginando a obra feita e o processo produtivo completado, reduz a personalidade à individualidade.

Na hora antes do alvorecer da Revolução Industrial, máquinas como as de Vaucanson já aniquilavam a graça prometeica. Desnaturavam o trabalho, impondo formas de servo-controle e de depreciação das faculdades intelectuais a seres dotados de consciência.

 

REFERÊNCIAS:
Doyon, André e Lucien Liaigre (1966). Jacques Vaucanson, mécanicien de génie. Presses Universitaires de France.
Sennett, Richard (2009) O artífice. Tradução de Clóvis Marques. Rio de Janeiro. Editora Record.
Voltaire (1887). Œuvres complètes de Voltaire. Garnier, Wikisource.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Voltaire contra Vaucanson – a pessoa reduzida ao indivíduo. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/11/16/voltaire-contra-vaucanson-a-pessoa-reduzida-ao-individuo/

A gaiola sem grades.

Trabalho.

Juárez Casanova

Imagina-se que o trabalho remoto seja emancipador. Não é. A vida do ser humano isolado, entregue aos seus próprios recursos é como a do pássaro engaiolado. Saltita de um lado para outro, sabendo que não há liberdade possível.

A serviço na Web, o trabalhador escande pelos lábios semicerrados da insegurança econômica as mesmas perguntas de sempre: em que os senhores da minha escravidão estão interessados? O que é preciso para que me permitam sobreviver nesse mundo que é o deles?

Os empregos em que as tarefas, o ambiente e a convivência eram comuns estão desaparecendo. Vão sendo substituídos pelas relações algorítmicas, nas quais um ser dotado de consciência realiza em solidão os mesmos gestos, as mesmas atividades dia após dia. A lembrança dos hábitos, das práticas e das profissões cuja extinção está em curso tolhe o entendimento de que a ambição de deixar de ser uma simples peça na engrenagem não se efetivará.

No advento da subsistência online, o trabalhador tornou-se um kit completo. Servo-assistido, autocorrigível, permutável e descartável. A miragem emancipatória conservou-se até desaparecer ante a evidência de que o encarceramento na Web, como todo encarceramento, convém ao carcereiro não ao encarcerado.

O que interessa discutir agora não é tanto do mal-estar do insulamento, sobre o que tudo já foi dito. São suas consequências. Solto, o pássaro que só conheceu a vida na prisão não sabe viver autarquicamente. Terá que empreender a metamorfose da sua identidade, sob pena de enlouquecer ou agonizar.

 

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CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – A gaiola sem grades. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/10/07/a-gaiola-sem-grades/

Bourdieu – Emprego, o viés escolástico.

Trabalho.

Nas sociedades contemporâneas, o trabalho é percebido como externo ao ser humano. É tomado como imperativo econômico que, se de um lado fere e magoa, de outro nutre o corpo e o espírito. A antropologia mostrou que essa percepção e esse sentimento são recentes e particulares ao nosso meio.

Nas sociedades pré-industriais o agir humano não era dissociado dos ciclos da natureza. As noções de tempo de trabalho, desemprego, escassez de postos e pleno-emprego, que tanto nos afligem, não existiam. Mesmo nas sociedades pré-modernas, a atividade produtiva era inscrita no domínio da não-contingência. O trabalho era mais do que um dever. Integrava o cerne natural da sociedade. Exceto os aristocratas, todos, desde a mais tenra idade até a extrema velhice, tinham algo a fazer para si e para os outros. Trabalhar era uma condição, não uma opção.

As transformações que assistimos no último século fizeram desaparecer essa forma de vida. Passamos de organizações em que as relações trabalhistas eram concebidas como relações sociais – confiabilidade, honra, tradição, amparo, etc. – para organizações em que as relações sociais são concebidas como relações econômicas – competitividade, lucro, caução, acumulo, exploração. Padecemos daquilo que Pierre Bourdieu, filosofo, mas também antropólogo de campo, denominou “viés escolástico”: erigir uma prática específica em norma. No caso o vínculo empregatício. Essa a razão da perplexidade ante seu decaimento.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Bourdieu – Emprego, o viés escolástico. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/09/19/bourdieu-emprego-o-vies-escolastico/

 

REFERÊNCIAS.
Bourdieu, Pierre (1963) Travail e travailleurs en Algérie. Paris. La Haye Mouton.
Bourdieu, Pierre (1996) Razões práticas, sobre a teoria da ação. Tradução de Mariza Corrêa.
Bourdieu, Pierre (1997) Méditations pascaliennes. Paris, Seuil

Wittgenstein – o trabalhador imaginário.

Trabalho.

Robert Rauschenberg

Nenhuma sociedade, escreveu Wittgenstein, pode entender o que não classifica e nomeia. A palavra que denomina referentes díspares produz a incompreensão. É o que ocorre com a designação “trabalho”. O termo tem sido entendido sucessiva e simultaneamente como atividade subalterna, como exigência social, como necessidade incontornável, como emancipador econômico, como dever ético. Por contiguidade, “trabalhador” tem nomeado indiferentemente o servo, o explorado, o sustentáculo da vida, o herói e o ente destinado a satisfazer necessidades próprias e alheias.

As denominações confusas do trabalho fizeram com que da Antiguidade até o século XVIII prevalecesse a ideia aristotélica de que os que trabalham teriam que ser tutelados por não disporem de tempo, educação e condições de exercerem o comando da própria vida. As capacidades naturais dos indivíduos diferindo, o trabalho impediria o indivíduo de atingir sua excelência, que é o da contemplação filosófica.

Mesmo Kant, ao pressupor a independência e a autossuficiência econômica como condições da perfeição, retirou a “personalidade civil” dos trabalhadores, dos empregados, das mulheres e de todos aqueles que não podiam se manter por si mesmos. Convenientemente, excetuou os funcionários públicos.

Já no século XIX, a denominação equívoca fez com que Mill argumentasse pela desqualificação dos pobres e dos desempregados. Subtraiu-se a perguntar se o direito ao trabalho seria indispensável à democracia. O socialismo quis humanizar o trabalho sem o modificar, o capitalismo liberal quis explorar o trabalho sem o humanizar, a economia de mercado pretendeu explorar o trabalho sem o modificar. Ao cabo, todos tiraram o ser humano do proscênio. De fato, e o mais das vezes de direito, o termo “trabalhador” nomeou um item da massa uniforme e desprezível que é compelida a se encarregar da produção.

Wittgenstein também deixou escrito que a linguagem reflete e é refletida pela cultura. E a cultura contemporânea segue tendo o trabalhador como ente estatístico, desprovido de alma, de espirito, de vontade. É o que denuncia a linguagem socioeconômica que tem o trabalhador como um ser humano “médio”, que trabalha uma hora na agricultura, duas no comércio, quatro na burocracia. Um ser quimérico, hermafrodita, de um metro e sessenta e sete de altura, pardo, de cabelo baio e olhos furta-cor.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Wittgenstein – o trabalhador imaginário. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/08/31/wittgenstein-o-trabalhador-imaginario
REFERÊNCIAS
Aristóteles (1982). Etica a Nicômaco. In, Obras. Madrid. Aguilar de Ediciones: (1337b29)
Aristóteles (1982). Política. In, Obras. Madrid. Aguilar de Ediciones, (VII, 9, 1328 b 39 – 1329 a 2).
Kant, Immanuel (1887) The philosophy of law. Translated by W. Hastie. Edinburgh. T&T. Clark
Mill, John Stuart (2014). Considerations on Representative Government. Cap VIII. London. Parker, Son, & Bourn.
Wittgenstein, Ludwig (1998) Zettel. In The collected work of Ludwig Wittgenstein. London. Blackwell Publishers

Sissemia – trabalho-escravo.

Trabalho.

A palavra “sissemia” denomina a figura sintática em que cada termo de uma expressão perde seu significado, assumindo o conjunto uma acepção diferente. Por exemplo: germanum em latim significa “legítimo”, a cópula fratus germanus, nomeia a figura jurídica “irmão legítimo”. Separadas, as palavras “irmão” e “legitimo” têm sentido diverso. O mesmo se passa com expressões como “sempre-viva” em que há uma flor; como “pé-de-cabra”, em que há uma ferramenta, mas não um pé ou uma cabra; e como “pé-de-moleque”, em que há um doce, mas não um moleque ou um pé.

Desmembrada a expressão “trabalho-escravo”, as palavras “trabalho” e “escravo” denotam respectivamente uma atividade humana e uma condição sub-humana. A forma que entendemos o étimo trabalho nada tem a ver com a condição penosa e compelida do escravo. O escravo produz apenas para conseguir sobreviver sem ser castigado. Não tem relação alguma com o que produz e aquilo que é obrigado a fazer gera o rebaixamento de um ser humano à condição animal.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Sissemia – trabalho-escravo. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensar https://hermanoprojetos.com/2022/08/12/sissemia-trabalho-escravo/
REFERÊNCIAS
Silveira Bueno, Francisco da (1967). Estudos de filologia portuguesa. Rio de Janeiro. Saraiva Editora.

Adeus à classe trabalhadora.

Trabalho.

Muitos se perguntam para onde irá o trabalho na economia digital. Poucos têm uma ideia da direção que está tomando. E preferiam não ter.

Na Grécia, em Roma, na Idade Média o homem livre, o servo e o escravo tinham o trabalho que correspondia a sua função social. Com o advento do mercantilismo, o trabalhador passou a vender o uso do seu esforço em troca de um salário que lhe permitia obter mercadorias e abrigo. A função social correspondia não à atividade econômica, mas ao seu resultado.

No primeiro capitalismo, alimentado pelo imaginário da ascensão social, a economia foi regida pela renda do trabalho próprio e pela exploração do trabalho alheio. A pessoa se situava em um estamento segundo os bens que se acumulava, seja na forma física, seja na financeira, seja na econômica. No advento da sociedade da informação, três fatores estão colaborando para determinar a quebra dessa estrutura:

  1. A irrelevância crescente do trabalho como fator produtivo, atribuível à informatização, à automatização e à robotização, mas, também, às técnicas psicológicas de pastoreio dos trabalhadores–consumidores;
  2. As conquistas trabalhistas, que se, por um lado, atenuam as dimensões alienante e de sujeição do trabalho, por outro, abrem a possibilidade de exploração em cascata do trabalho alheio;
  3. O incremento no número de trabalhadores marginalizados. Aos improdutivos eclesiástico, militar, jurista, burocrata, bancário e assimilados veio se juntar a massa dos autônomos incertos, dos empreendedores casuais, dos intermitentes e dos nem-nem.

A configuração digital da economia provocou o decréscimo da necessidade de se contratar trabalho e, simultaneamente, abriu a possibilidade de se trabalhar cada vez menos, ou de, simplesmente, não trabalhar. Os que têm consciência disso temem pelas consequências dessa conjunção e intimidam-se por não visualizarem alternativa operacional a oferecer.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 -Adeus à classe trabalhadora. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/07/25/adeus-a-classe-trabalhadora/

De abelhas e de tigres.

Trabalho.

Ao longo dos séculos fracassaram as tentativas para explicar o comportamento dos animais. Em grande parte, porque, à exceção de Pavlov, a Ciência os observou como se fossem humanos inferiores. Seguiu a fantasia dos apólogos: Esopo, La Fontaine, Machado, Disney….

Com o advento da etologia, veio a consciência de que a conduta animal é particular a cada espécie e a cada gênero: o repertório cultural dos chimpanzés de um bando da Tanzânia é distinto de outro da Costa do Marfim. Veio a demonstração da vida intelectual dos animais:  pássaros que usam galhos-ferramentas para construir ninhos. Veio a evidência da sua vida emocional: golfinhos que gritam em desespero quando um indivíduo da espécie é maltratado.

Um dos efeitos dessas investigações foi mostrar o quão pouco sabemos sobre aquilo que é próprio da biologia da nossa espécie: a nossa fração zoé. Desde Freud, limitava-se a estudar as pulsões que deveriam ser canalizadas ou recalcadas para que e pudesse viver em sociedade. Mas a etologia mostrou que não é só isso. Há outros aspectos na vida social.

Por esse motivo a ciência está contrastando a variedade de formas de vida animal para tentar esclarecer algumas das nossas condutas. Investiga, por exemplo, o mimetismo. A razão de os sistemas de liderança pregarem como natural um comportamento que é próprio das matilhas e das alcateias, com seus machos e fêmeas alfas. Ou o motivo de trabalharmos em linha, como as cáfilas se, naturalmente estamos mais próximos da dispersão dos bandos simiescos.

As conclusões dessas pesquisas testemunham que várias condutas humanas no trabalho são espelhamentos do observado entre os animais. O que faculta especular sobre a possibilidade de que a Web nos leve a reproduzir os enxames das abelhas. Ou que o isolamento digital venha a desenvolver em nós o comportamento do tigre, que só congrega para acasalar.

Quem sabe?

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – De abelhas e de tigres. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/07/15/de-abelhas-e-de-tigres/

O trabalho abnormal.

Trabalho.

Em que medida o declínio do trabalho presencial invalidará as normas que o regem?

A questão procede, dado que os códigos de rebanho, que servem para manter unidos e direcionados os corpos e as mentes, são inúteis para adestrar o trabalhador em um mundo de corpos ausentes e mentes livres.

Regras impositivas, como a de cumprir horários; ou insensivelmente toleradas, como a de ouvir com resignação as sandices discursivas dos dirigentes, deixarão de ter sentido no trabalho não presencial. Já as regras indicativas, como a de usar um pano colorido atado ao pescoço, ou realizar tarefas não contratadas, serão inaplicáveis.

Por terem apoio somente na presença física, as sanções organizadas – reprimendas, suspensões, transferências, desligamentos – cairão em obsolescência irreversível. Também as sanções difusas de constrangimento gregário – menosprezo, sarcasmo, insultos, ameaças veladas, indignações – caducarão em um mundo impessoal. Essas mutações já vêm esgarçando a tessitura das convenções dominantes.

O management havia avançado tanto que, em muitos segmentos, a internalização das normas transformara os trabalhadores em formigas autodisciplinadas. Quando pisamos em uma carreira de formigas, as sobreviventes se dispersam em todas as direções para logo se reorganizarem. Com o advento da tecnologia digital, os trabalhadores se tornarão indivíduos de uma coletividade temporária e distante. Ocorrências como a pandemia, práticas como as da subcontratação oculta e incidentes como o imprevisível flutuar das redes gerarão efeitos dispersivos, nos espalhamos para todos os lados, mas sem recomposição posterior.

Não somos formigas. Só no limite da vida e das afeições somos guiados por instintos. As pulsões, as emoções e, mesmo, a razão lógica são instáveis e pessoais. Os funcionários, empregados e contratados não voltarão a caminhar na mesma direção até que outras normas sejam estabelecidas, seus processos inculcados ou aceitos.

Deixamos de ser amestráveis. Antonio Gramsci disse famosamente que se alguém trata o trabalhador como gorila amestrado ele se comportará como um gorila amestrado. Não somos como os gorilas. Há perplexidade, porque ninguém sabe como impor normas a trabalhadores autárquicos. Seres que se colocam acima da jaula institucional, que se congregam à distância, que debandam com facilidade.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – O trabalho abnormal. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/07/06/o-trabalho-abnormal/
REFERÊNCIAS.
Gramsci, Antonio (2008). Americanismo e fordismo. Tradução de Gabriel Bogossian. São Paulo: Hedra.

O brilho furta-cor da liderança.

Trabalho.

Os iluminados da burguesia complacente isentam os líderes das corporações de defeitos morais. Oferecem a imagem pregnante do executivo disciplinado, do vencedor impávido além de qualquer constrangimento.

No governo das corporações não há espaço nem para o diletante, nem para o Übermensch de Nietzsche: o homem superior, interessado em muitas coisas. Não há lugar para o que fala por si e não por uma posição econômica ou ideológica a defender. Não há lugar para o altivo, para o que se entrega à contemplação e para o preocupado com questões éticas.

A solução lógica para a governança seria a de Platão: guardiães, escolhidos por sua probidade e capacidade intelectual, gerindo discricionariamente as organizações. Mas a história mostrou reiteradas vezes a inviabilidade do modelo. Os governos triunfantes, sejam os do Renascimento, os de Versailles, ou os das grandes corporações do pós-guerra foram, no início, simultaneamente autoritários, centralistas e progressistas. Mas para se manterem no poder, tornaram-se tirânicos, retrógrados e infensos a quaisquer acanhamentos de ordem moral.

Não é diferente o perfil daquele cujo lastro e poder têm origem na política ou na abastança. O líder imponente, que inspira o temor, o asco e o aplauso conformista dos ingênuos, dos abúlicos e dos vencidos.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 -O brilho furta-cor da liderança. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/06/22/o-brilho-furta-cor-da-lideranca/
REFERÊNCIAS.
Platão, Republica. In Platon (1981). Obras completas. Traducción y notas de María Araujo et alli. Madrid. Aguilar S.A. de Ediciones.

Steiner George (2012) Tigres no espelho e outros textos de revista The New Yorker. Trad. Denise Bottmann. São Paulo. Globo.

Torturar Aristóteles.

Trabalho.

Aristóteles jamais apartou o conhecimento da forma (projeto), o conhecimento de como seria possível produzir essa forma (gestão), e o conhecimento sobre como a construir (técnica). Tinha clareza de que um médico teria que ser ao mesmo tempo o projetista, o gestor e o técnico do processo terapêutico (Física, Livro II, 2 -194a 11).

Contrapôs a potência (dynamis) ao ato (energeia). Deu como exemplo da potência, o poder ou capacidade de completar o trabalho (Metafísica Lv. IX; De anima, Lv. II). Pensava que o artesão, o auleta e todos os que criam têm uma atividade (praxis) e uma obra (ergon). Os que não completam uma obra – o escravo, o empregado, o funcionário, os inoperantes – não atualizam o potencial de sua humanidade.

Ao longo do século XX os cientistas sociais teimaram no caminho aberto por Locke e adotado por Hegel e Marx. Sentiram-se na obrigação de reduzir o trabalho à sua vertente conversora. Ignoraram que o trabalho não se limita à “transformação inteligente em forma cooperativa para execução de uma tarefa dada por um usuário ou consumidor”. Contaminadas pelo historicismo, as ciências sócio-humanas fundiram em um mesmo processo o que cabe à natureza (matéria prima), ao mandatário da obra (forma) e ao trabalhador (técnica). Torturaram a sabedoria ancestral para encaixar o trabalho no modelito então em voga.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Torturar Aristóteles. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/06/08/torturar-aristoteles/

 

REFERÊNCIAS.
Cukier, Alexis (2018). Qu’est-ce que le travail ? Paris. Librairie Philosophique J. Vrin.

Platônica alienação.

Trabalho.

Platão situa o produzir-para-os-outros na esfera do público. Daí que haja creditado tanto o ponós como o ergon, as denominações gregas mais próximas para o que hoje denominamos ‘trabalho’, à satisfação de necessidades e de exigências alheias. Nem mesmo o detentor da teckné seria o autor ideal da sua obra, uma vez que o propósito e forma eram decididos por quem a consumiria ou usaria. [República L. II, 369 b-e].

Se no domínio da polis todos deveriam ser admitidos, no domínio da praxis só um pequeno número de qualificados podia prescrever, orientar e decidir sobre a forma e o fim do objeto a ser produzido. O feitor-gerente (epitiritís) tratava dos meios de execução, o operador (techníti̱s, agrotis) do processo. A parcela intelectual do trabalho era exclusiva dos que tinham a capacidade de se orientar na fabricação e na agricultura. A habilidade de proceder em tempo e na circunstância oportuna, a argúcia prática (métis) e o zelo com que operava ditavam seu status. [Protagoras 320-321]. Data, portanto, da Grécia clássica, e não de Frederik Taylor, a distinção categórica entre aquele que determina o processo produtivo e aquele que produz.

Nunca saberemos como a alienação foi vivida e sentida naquela época. Mas devemos ter presente que se ninguém provou que a abuso do semelhante é um traço natural do ser humano, ninguém ainda demonstrou o contrário.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Platônica alienação. – A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensar – https://hermanoprojetos.com/2022/05/20/platonica-alienacao/
 
REFERÊNCIAS:
Platon (1981), Obras completas. Traducción y notas de María Araujo et alli. Madrid. Aguilar S.A. de Ediciones.

Prometeu entediado.

Trabalho.

 

O trabalho repetitivo, alicerce da economia do constrangimento, nutre-se da vacuidade do espírito, da continuidade dos processos, da insatisfação da espera. O trabalho inventivo, que abre a vida econômica e contesta a dominação, nutre o espirito, descontinua as rotinas e satisfaz a mente humana.

O primeiro solicita a atenção absoluta. O segundo a atenção profunda. A atenção absoluta corresponde à aplicação intelectual sobre fluxos de informação oscilantes. Requer e implica na hiperatividade do espírito. Suprime o tédio pela aceleração do banal. A atenção profunda corresponde à imersão da mente nos objetos. Requer e implica na serenidade do espírito.

Anula o tédio pelo foco no essencial.

No trabalho repetitivo o ser humano deixa de ser homo faber para retornar à condição de animal laborans. Um ser rudimentar que espreita o perigo e é capaz de safar-se das ameaças da selva econômica. No trabalho inventivo o ser humano deixa de ser homo faber para ascender a condição de homo excogitatoris. Um ser avançado, que vive na fronteira estimulante da selva econômica.

Prometeu, o inventor da lucidez e da educação, foi condenado ao sofrimento por ter induzido os homens ao trabalho emancipado dos deuses. Uma grande águia devora seu fígado à mesma hora todos os dias. A espera o enfada eternamente. A recorrência do sofrimento aniquila seu espírito.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – A invenção do trabalho. – A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensar.  https://hermanoprojetos.com/2022/05/04/prometeu-entediado/

A invenção do trabalho.

Trabalho.

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A Antiguidade não dispunha uma expressão unívoca para exprimir o que denominamos “trabalhar”. Em hebraico e em aramaico o termo aproximado para trabalho (avodah) é formado a partir da raiz avad (עבד), que significa escravo, servo. A palavra designa a condição de um ser humano, não o que ele faz. Em grego clássico, os verbos “poien”, “prattein” e “ergazetai”, que para nós são sinônimos, eram aplicados a atividades, moralidades, e contextos distintos. Também os romanos diferiam laborare de facere ou fabricare.

A palavra trabalho deriva do latim vulgar tripaliāre, que até o século VI significava torturar. Trepãlium era o jugo de três varas que se impunha na sujeição dos animais de serviço. Depois denotou o instrumento de varas cruzadas que esmagava os ossos das pessoas torturadas (similar ao pau-de-arara).

O semantema “trabalho” substitui “labor” no século XVIII, mas só veio a significar o esforço humano inclusivo a partir do Renascimento. Foi com John Locke que ganhou a acepção de atividade constante, regulada, cujo resultado diz respeito a outros e que visa produzir valores úteis. Aderiu ao termo inglês work, que como o alemão e holandês werk, vem do indo-europeu werg, fazer. Um significante que tem o sentido geral de transformação e que nomeia tanto o processo laboral como o seu resultado. Esse entendimento só foi questionado no século XIX, quando a equalização das mercadorias via valores monetários de troca veio a conformar o que Marx denominou “trabalho em abstrato”.

No século XX, “trabalho” passou a denotar uma atividade orientada indiferentemente para a produção, a transformação, a manipulação e o tratamento de bens materiais e imateriais, criadora de um valor econômico, que supõe: a) separação entre o esforço (a tarefa) e o resultado do esforço (o produto); b) um padrão, em geral o tempo, de medir o esforço produtivo. Uma fórmula que conotava tanto a abstração do trabalho natural, quanto a abstração dos seres humanos

Na atualidade, o conceito unívoco passou a ser fortemente questionado. Ao suprimir a relação com a natureza e a interação social, a expressão despersonaliza; ao considerar o trabalho uma atividade puramente econômica, a expressão degrada; ao pretender medir e avaliar algo que não tem parâmetro nem paradigma, a expressão desumaniza.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – A invenção do trabalho. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/04/15/a-invencao-do-trabalho/

REFERÊNCIAS.
Finley, Moses Israel, (1973) The ancient economy. Berkley. University of California Press.
Gorz, André (1988). Métamorphoses du travail: quête du sens. Paris. Éditions Galilée.
Marx, Karl (2005). O Capital. Tradução de Reginaldo Sant’Anna. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira.
Vernant, Jean Pierre e Vidal-Naquet, Pierre (1988), Travail et esclavage en Grèce ancienne. Bruxelles. Éditions Complexe.

Interação 05: Interacionismo – As dores de parto do novo normal.

 

manipulationsO valor atribuído ao trabalho está em mutação permanente e normatização constante. Em diferentes épocas e circunstâncias o trabalho foi ora desprezado, como na Grécia Clássica, ora estimado, como nas sociais democracias, ora naturalizado, como nas ideologias econômicas contemporâneas.

O que têm em comum essas formas de ver é que o normal costuma ser confundido com o lógico e este com o justo. É por isso que as descontinuidades nas relações laborais são tidas como inconcebíveis, erradas e dolorosas.

As mudanças de fundo nas estruturas econômicas vividas no espaço de uma geração podem ser profundas, mas não são profusas. Principalmente não são transmissíveis. A geração que ontem saiu de cena viveu a guerra total, mas não a totalidade dos seus efeitos sobre o trabalho. Vivemos nós uma pandemia, a primeira da era global. Floresceram o home office e os avatares do trabalho a distância. Mudanças que desalinharam as interações laborais e interditaram o cálculo sobre seu futuro.

Hoje, como sempre, tendemos a padecer nas mutações do trabalho porque não temos exemplos a seguir. O conhecimento dos fatores de ignição de ocorrências passadas é ilustrativo, mas improfícuo. As linhas de evolução são inúteis para antever rupturas ou prescrever ações. O “outra vez” nada informa sobre o “nunca antes”.

 

VEJA TAMBÉM:

Interação 01: Durkheim e Simmel – Entre o ator e o agente.

Interação 02: Interacionismo situacionista – a ruptura absoluta.

Interação 03: Interacionismo simbólico – a descontinuidade restaurada.

Interação 04: Wittgenstein – Interacionismo lúdico – a vida estrangeira.

 

UTIILIZE E CITE A FONTE:
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Interação 5: Interacionismo – As dores de parto do novo normal. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/03/28/interacao-05-interacionismo-as-dores-de-parto-do-novo-normal/

 

REFERÊNCIAS:
Cherques, Hermano Roberto Thiry (2008). Métodos Estruturalistas. São Paulo. Atlas
Foucault, Michel (2007). As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. Tradução de Salma Tannus Muchail. São Paulo. Martins Fontes.
Cherques, Hermano Roberto Thiry (2004). Sobreviver ao trabalho. Rio de Janeiro: Editora FGV.