Analítica histórica do trabalho.

Ética.

Proposta por Fernand Braudel, a esplêndida e redutiva figuração dos anéis da história tem o mérito de evidenciar a impropriedade da maior parcela dos discursos sobre o trabalho.

Segundo o esquema de Braudel, a história do trabalho é cindida por arcos concêntricos espaciais/temporais que se justapõem e se sucedem, tal como vemos no tronco de uma árvore. O círculo mais interno, o presente, diz respeito aos trabalhadores em um tempo-lugar marcado pelos eventos e oscilações breves da vida. O círculo seguinte, o mediano, refere à vida no seio dos grupos e das comunidades; é o do tempo social, da consciência coletiva, tingida pelas ocorrências do passado e pelo que se presume que virá. Por último, há o círculo maior, do tempo longo, a marca remota deixada pela longa duração nas sociedades e nas civilizações.
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Agamben – a tensão bloqueante.

Epistemologia.

São Tomás de Aquino chamou a atenção para a diferença entre o criar do nada [creare ex nihilo], que define o fiat do Deus da cristandade, e a geração a partir da matéria [facere de materia], que define o inventar humano. Apesar da advertência, nos séculos a seguir a filosofia atribuiu poderes divinos ao engenho humano. Continuar lendo

Tempo – Quevedo

Notas.

Ayer se fue; mañana no ha llegado;
Hoy se está yendo sin parar un punto;
Soy un fue, y un será, y un es cansado.

Francisco de Quevedo – ¡Ah de la vida!…

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry (2023). A Ponte – https://hermanoprojetos.com
REFERÊNCIAS.
Quevedo, Francisco (2019). Obras Completas de Don Francisco de Quevedo Villegas. Sydney. Wentworth Press

Tempo, memória e história.

Perplexidades.

Adam Martinakis

A memória é bifronte: é presença e é recordação. Não é alimentada pelo que ocorreu, mas pelo que nos afeta daquilo que ocorreu. Não é condicionada pela generalidade das consciências, mas pelas consciências, mortas ou vivas, com as quais dialogamos.

Samuel Butler deixou escrito que a memória é como o eco que continua a repercutir depois que o som se extingue. Ocorre que na Era Digital o som não se extingue. O dito e o escrito retumbam sem cessar. Atordoam de tal modo a compreensão que desbordam em perplexidade. Disponíveis infinitamente, os fatos e os dados substituem as recordações pela crônica, retificando o que lembramos, o que esquecemos, o que sublimamos.

Consta da segunda das Meditações Cartesianas de Edmund Husserl que quando a consciência se volta sobre si mesma, quando re-fletimos, o tempo é sem história. Infelizmente, na atualidade o turbilhão das informações está fazendo com que as lembranças que construímos se tornem impessoais. Acumuladas sem perda nem filtro, geram a monstruosidade documental que devora nossas memórias.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2023 – Tempo, memória e história. A Ponte – https://hermanoprojetos.wordpress.com/2023/01/20/tempo-memoria-e-historia/

 

REFERÊNCIAS.
Butler, Samuel (2009). Unconscious memory. London. Cape
Husserl, Edmund. Meditações cartesianas. Trad. Frank de Oliveira. São Paulo: Madras, 2001.
Ricœur, Paul (2007) A memória, a história, o esquecimento. Tradução de Alain François et. all. Campinas, SP. Editora da Unicamp
Silva, Franklin Leopoldo da (1995). Bérgson, Proust: tensões no tempo. In: Novaes, Adauto. (Org.). Tempo e história. São Paulo. Companhia das Letras.

 

Poincaré, a pedra e o dado.

Nota.

“A ciência é feita de dados como uma casa é feita de pedra. Mas um acúmulo de dados não é mais ciência do que um monte de pedras é uma casa.”

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry (2023). A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensar – https://hermanoprojetos.com
REFERÊNCIAS.
Poincaré, Jules-Henri (2015). La Science et l’Hypothèse. Paris. Éditions Flammarion

O TRABALHO – Uma investigação na forma de Michel Foucault.

Notícias.

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Parte 1 – O trabalho visto por Foucault

  • O discurso sobre o trabalho
    • As palavras e as coisas
    • Vigiar e punir
    • História da sexualidade
    • O controle – Foucault para além de Foucault
  • Razão, poder e saber
    • A natureza do trabalho
    • Hetereotipia
  • Poderes e racionalidades
    • Poderes
    • Racionalidades

Parte 2 – Exercício: Da força animal ao ativo descartável

  • Procedimento
  • Títulos
  • As formas de trabalhar
    • O motor animal – força de trabalho
    • A mão que se paga – mão-de-obra
    • O corpo que pensa – administração de pessoal
    • O humano enquanto recurso – RH
    • A ferramenta passiva – capital humano
    • O ativo descartável
  • O trabalho e o dispositivo
    • O disposto
    • O disponível
    • A disjunção
    • O disponente

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Pluralismo – o argumento primeiro – A Tábua de Carnéades.

Ética.

Carnéades de Cirene (214-169 aec), precursor do cepticismo filosófico, foi levado para Roma como conferencista. Lá, sustentou que os deuses não existem, que a justiça é questão de conveniência e que os dilemas sobre valores definitivos são insolúveis. Furiosos, os romanos o repatriaram.

Injustamente, já que o seu argumento decorre do raciocino lógico expresso no dilema que ficou conhecido como Tábua de Carnéades. A premissa remete à situação em que dois náufragos disputam a posse da única tábua capaz de suportar o peso de somente um. O consequente leva ao esclarecimento da impossibilidade de uma solução por meio de qualquer princípio não contraditório. Incluindo os princípios morais que regem as leis. Decorre daí a execração romana.

Os dilemas éticos ocorrem sempre que um indivíduo ou um grupo se encontra em situação que exija cumprir com dois ou mais deveres, mas que só possa cumprir com um. São argumentos em que a premissa (lema) contém dois termos que implicam na mesma consequência, no caso a morte de um dos náufragos. As alternativas são categóricas (sim ou não). O agente tem que escolher entre duas ações morais obrigatórias, mas excludentes. Qual o critério?  O mais jovem, o mais velho, o mais …. Não há critério lógico fora de uma crença pessoal ou coletiva.

Carnéades foi extraditado devido à demonstração plena, inaceitável para os romanos e seu Direito, de que a validade da decisão lógica sobre a conduta humana só é possível no âmbito de domínios finitos particulares. Condição que jamais ocorre com os dilemas éticos, em que a solução implica na exigência de que outros (a sociedade, o estado, as religiões ….) inflijam seu juízo e suas leis à seres humanos que previamente declaram serem livres. Paradoxo que admite uma única inferência racional: a do convívio na diversidade.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2023 – Pluralismo – o argumento primeiro – A Tábua de Carnéades. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.wordpress.com/2023/01/16/pluralismo-o-argumento-primeiro-a-tabua-de-carneades

Espinosa – As boas coisas.

Notas.

“Não é por julgarmos uma coisa boa que nos esforçamos por ela, que a queremos, que a apetecemos, que a desejamos, mas, ao contrário, é por nos esforçarmos por ela, por querê-la, por apetecê-la, por desejá-la, que a julgamos boa.”

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry (2023). A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensar – https://hermanoprojetos.com
REFERÊNCIAS.
Espinosa, Baruch (2015). Ética. Tradução Grupo de Estudos Espinosanos. Ed. Bilíngue. São
Paulo. EDUSP [Parte 3, Proposição 9]

A dissolução do contrato coletivo de trabalho.

Trabalho.

Nas primeiras leis sobre a contratação das atividades produtivas, ainda na Antiguidade, o trabalho era tido unicamente como a tarefa do corpo. Era objeto de um acordo de compra e venda, que guardava quase todas as características da escravidão.  Podia ser vendido como obra feita, isto é, remunerado como parte do preço do produto ou serviço, ou como mercadoria, ao se atribuir um preço ao esforço do corpo humano. Continuar lendo

Talento.

Nota.

José Joaquim Alves Pacheco, retratado na carta ao Sr. Mollinet que Eça de Queirós fez constar da Correspondência de Fradique Mendes, nunca produziu nada, mas tinha imenso talento.

A percepção generalizada sobre o talento do Pacheco o levou aos mais altos píncaros da sociedade e da política, dispensando o seu emprego em qualquer dessas instâncias.

 

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CHERQUES, Hermano Roberto Thiry (2023). A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensar – https://hermanoprojetos.com

 

REFERÊNCIAS.
Queirós, Eça (s/d). Correspondência de Fradique Mendes. In, Obras completas de Eça de Queirós em 3 volumes. Vol.2, p 1065. Porto. Lello & Irmão – Editores.

Heráclito – a charlatanice quantitativa.

Epistemologia.

Uma coisa pode ser e pode não ser. Com essa assertiva, Heráclito expressa a mudança constante e eterna do Logos. Adverte ao mesmo tempo contra a dubiedade dos pitagóricos de adornar e entesourar quantidades e contra o imobilismo dogmático de Parmênides. Denuncia que ambos desprezavam a realidade viva.

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Acaso – a expectativa, modo de explorar.

Epistemologia.

Charlie Hankin

Somos condicionados a crer nas aparências de ciência e mérito. Daí o esforço dos iniciantes para darem a impressão de que têm experiência, de os médicos pendurarem todo tipo de certificados nas paredes do consultório e de os economistas jamais confessarem que não têm a menor ideia do que está acontecendo.

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Plutarco – A mente.

Nota.

A mente não é um vaso a preencher, mas um fogo a ser aceso.

 

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CHERQUES, Hermano Roberto Thiry (2022). A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensar – https://hermanoprojetos.com

 

REFERÊNCIAS.
Plutarco, Lúcio Méstrio (2019). Sobre a educação dos filhos e outros escritos. Tradução de Natalia Ruggiero. Campinas. Kírion.

A nulidade do algorítmo benthamita.

Ética.

A primeira frase do primeiro capítulo da Introdução aos princípios da moral e da legislação, de Jeremy Bentham, diz isso: “A natureza dispôs a humanidade sob o governo de dois soberanos, o prazer e a dor. É por eles, e só por eles, que podemos determinar o que devemos fazer”.

Bentham havia se perguntado por que razão, afinal, os seres humanos seríamos obrigados a cumprir compromissos morais. Descartada a formalidade do que vai escrito em algum lugar, concluiu que o que nos obriga é a coerência lógica. Uma vez que preferimos o prazer à dor, o que pode nos induz a agirmos moralmente é o nosso anseio de evitar o sofrimento. Continuar lendo

Probabilidade.

Nota.

Eu acredito nas estatísticas.

Os levantamentos, sistematizações e cálculos têm fundamento.

O que eu não acredito, e não vejo como alguém possa acreditar, é que indiquem a probabilidade da ocorrência de eventos futuros.

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CHERQUES, Hermano Roberto Thiry (2022). A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensar – https://hermanoprojetos.com

Freud – O gerente, o totem e o tabu.

Trabalho.

Freud pensava que o tabu de um rei é tão forte que os súditos não têm forças para o interpelar. É necessário que alguém, que cause menos temor, medeie a relação entre ambos. A observação é perspicaz. Não fica clara a sua origem.

Ao refletir sobre a intermediação hierárquica é possível que Freud se reportasse à figura dos anjos hebreus, contraface dos santos cristãos no relacionamento entre a divindade e os mortais. Talvez, como colecionador de estatuetas de povos politeístas, que chamava de “utensílios de imaginação”, Freud tenha pensado em um deus dos deuses, o poder supremo que governa o mundo, destituído de interesses e de inclinações e que, portanto, não está ao alcance dos mortais.

Nunca saberemos o que inspirou a observação freudiana. O que temos confirmado, graças à antropologia, é que as relações entre humanos e seres totêmicos necessitam de mediação. A fé dos Iorubas, por exemplo, que herdamos da África e que Freud não conhecia, considera que os deuses nasceram de um deus supremo – Olodumare. Por isso os cultos afro consideram idolatria a mediação de sacerdotes ou interpostos profissionais.

Talvez o sincretismo entre a cultura europeia e as culturas afro ajude a nos proteger dos totens institucionais que anulam as identidades. Nos prepare melhor para o advento trabalho à distância, com a dissolução dos lambe-botas, dos gerentes-pastores que têm o encargo de intercederem junto aos deuses organizacionais, apascentando seres humanos com a farsa de que suas opiniões e reclamos estão sendo ouvidos.

 

REFERÊNCIAS:
Freud, Sigmund (2013). Totem e tabu. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo. Penguin

 

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CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Freud – O gerente, o totem e o tabu. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.wordpress.com/2022/12/23/freud-o-gerente-o-totem-e-o-tabu/
 

‘Prefiro pedir demissão a voltar a trabalhar todos os dias no escritório’

Notas.

Deu na BBC por Ian Rose.

Em junho, Elon Musk disse aos seus funcionários, na Tesla, que ele queria que eles voltassem a trabalhar no escritório da empresa.

Ele chegou a publicar um post no Twitter dizendo que os funcionários que não retornassem deveriam “fingir que estão trabalhando em outro lugar“.

Musk não é o único empregador a dizer aos seus funcionários que voltem ao local de trabalho. E, em muitos casos, houve profissionais que preferiram deixar seus empregos a retomar à semana de cinco dias no escritório.

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Deus, espaço e tempo.

Nota.

O espaço é infinito. O tempo é eterno. Transitamos no espaço infinito. Somos na eternidade do tempo. No espaço existem coisas. No tempo não há existência. Só presença. Compreendemos o espaço. Sentimos o tempo.

A deidade verdadeira, como o D’us hebraico, sequer pode ser nomeada. Não reside no espaço, não é uma coisa localizada na montanha, na floresta, no mar, no céu. A deidade não está. A deidade é. Por isso não é uma imagem visível, mas uma ideia. Não uma sombra, mas uma luz na introvisão do espírito.

Poucos sentem essa Presença. Dentre esses poucos, alguns, os teístas, creem que a Presença é a totalidade externa do que é. Outros, os deistas que o espírito é a totalidade em si, tudo o que é.

UTILIZE E CITE A FONTE.
REFERÊNCIAS.
Cf. Heschel, Abrahan Joshua (2014). O Schabat: seu significado para o homem moderno. Tradução de Fany Kon e J. Guinsburg. São Paulo. Perspectiva.